Sunday, May 10, 2009

Canonicidade Bíblica (3/3): Livros Extra-Bíblicos

STAFF, A. P. The Canon and Extra-Canonical Writings.
(Copyright © 2003 Apologetics Press, Inc.)

Tradução e Adaptação: J.S. Cavani


Todo tipo de literatura fora da Bíblia é considerada extra-bíblica. Tudo que seja de natureza bíblica que não faça parte do cânon bíblico é considerado extra-canônico, este tipo de material inclui os apócrifos e os pseudopígrafos. Estes livros são compostos de profecias, histórias, atos, evangelhos e apocalipses, muitos deles alegando autoria de homens ou mulheres mencionados na Bíblia. Existem livros que já foram atribuidos à Adão, Enoque, Barnabé, Tomé, Paulo e outros mais. Alguns são compilações contendo atos de homens como Pôncio Pilatos, Paulo, Pedro, e outros notórios homens do Novo Testamento. Os tópicos discutidos por tão vasta literatura são extensivos, desde horóscopos anuais (i.e. Tratado de Sem) até a infância de Jesus como no Evangelho da Infância de Tomé.

O Velho Testamento – Apócrifos e Pseudopígrafos

Há dois tipos de escritos extra-canônicos no Antigo Testamento: apócrifos e pseudopígrafos. Quando ouvimos falar sobre os apócrifos (também chamados deuterocanônicos), os livros que primeiramente vêm a mente são aqueles conhecidos como a Apócrifa. A Apócrifa são um subgrupo de escritos apócrifos, que literalmente querem dizer “escondidos.” Estas palavras (Apócrifa e apócrifos) são derivados do Grego apokruphos, e se referem aos livros que as Igrejas Católicas, Russa Ortodoxas, Grega Ortodoxas aceitam como canônicas, mas que o Cânon Hebraico rejeita. O Cânon Católico e Ortodoxo variam, não apenas do Cânon Protestante e Hebraico, mas também entre eles. A Igreja Católica considera Tobias, Judite, 107 versículos espalhados pelo livro de Ester, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, a Carta de Jeremias, a Oração de Azarias, a Canção dos Três Jovens, Susana, Bel e o Dragão, 1 e 2 Macabeus como canônicos. 1 e 2 Esdras e a Oração de Manassés foram adicionados como um apêndice no fim do Novo Testamento e são considerados não-canônicos pela Igreja Católica Romana. A Igreja Ortodoxa Grega aceita o Cânon Católico, mas adiciona 1 Esdras, Salmo 151, a Oração de Manassés e 3 Macabeus ao seu Cânon enquanto que 4 Macabeus é colocada no apêndice. Em adição ao Cânon Católico, a Igreja Ortodoxa Russa considera 1 e 2 Esdras (os quais eles chamam de 2 e 3 Esdras), Salmo 151 e 3 Macabeus como canônicos. Porque então estes livros adicionais são considerados canônicos por alguns e não por outros?

Assim que a Septuaginta (tradução grega do AT) ganhou preeminência ao redor do mundo, um grupo de escritos foi adicionado aos tradicionais 24 livros do Cânon Hebraico – estes eram a Apócrifa. Porque estariam estes livros no AT Grego, mas não no AT Hebraico? No seu livro The Life and Times of Jesus the Messiah, Alfred Edersheim deu uma explicação provável para o desenvolvimento de ambas a Apócrifa e a pseudopígrafa do AT. Com a tradução do AT em Grego por volta de 250 AC, os Judeus (particularmente aqueles que estavam fora da Palestina) começaram a transição do pensamento judaico-tradicional para o pensamento judeo-helenistico. Isto envolveu a mistura das filosofias gregas, entre as quais estavam o Estoicismo e o Epicurismo, com a teologia do AT. Com este desenvolvimento, um novo grupo de escritos foi procurado, escritos que pudessem reconciliar as visões opostas do Judaísmo e do Helenismo. O resultado foi a Apócrifa e a pseudopígrafa do AT – livros que eram o meio-caminho entre a verdade do Antigo Testamento e a mitologia e filosofia humanística do mundo Greco-Romano (1972, 1:31-39). É por causa disto que a Apócrifa, a qual teve uma significância histórica para a Judéia e uma significância teológica para os Judeus Helenisticos, foram incluidos no Cânon Grego do AT.

Embora o Cânon Hebraico nunca incluiu a Apócrifa, os helenistas e alguns dos cânons cristãos e manuscritos os incluiram. As cópias existentes da Septuaginta os incluiram, alguns dos textos antigos da patrística fazem citações deles e alguns dos Pais da Igrega (Irineu, Tertuliano, Clemente) os consideravam canônicos (Geisler e Nix, 1986, pp. 266-267). Alguns dos Concílios da Igreja Católica (começando com Hipo em 393 e culminando com o Concílio de Trento em 1546) os considerou canônicos. Porque então nós os rejeitamos? Uma das objeções é que eles foram escritos depois que as revelações do Antigo Testamento haviam cessado (depois de Malaquias) e antes que as revelações do Novo Testamento começassem. Embora certos livros como 1 e 2 Macabeus contém registros históricos precisos, eles possuem o mesmo valor que os registros históricos escritos por Tácito ou Heródoto. Sem dizer é claro que muitos dos apócrifos contém erros e contradições. A objeção maior é que eles não estão incluidos na Bíblia Hebraica. Os Judeus, os guardiões da Antiga Aliança, os rejeitaram. O Cânon Hebraico está completo e fechado, consistindo dos 39 livros que fazem parte do nosso AT. Este Cânon foi fechado nos dias de Esdras e não deve ser re-aberto para incluir a Apócrifa. Já a pseudopígrafa (falsos escritos) são um conjunto de escritos, falsamente atribuídos a homens da época do AT. Tais escritos foram escritos entre 200 AC - 200 AD e incluem livros apocalípticos, testamentos, lendas, literatura filosófica, provérbios, orações e salmos. O fato de não estarem inclusos no Cânon é devido ao fato de conterem falsas informações a respeito de seus autores. Se um livro mente a respeito de sua origem, provavelmente ele contém falsidades. Se um livro requer uma falsa atribuição em ordem para ser canônico, então ele contém características que fazem sua inspiração e canonicidade suspeita. Enfim, a pseudopígrafa contém misturas de mitologia grega com teologia vetero-testamentária, contradições óbvias, erros nas áreas de geografia e história, e por esta razão foram rejeitados e chamados de falsos escritos. Embora haja possíveis citações ou alusões em Judas e 2 Timóteo a livros como 1 Enoque, o Testamento de Moisés e o livro de Janes e Jambres, isto não os torna inspirados. Assim como poetas pagãos são citados por Paulo em Atos e Tito, o relato bíblico deles foi um uso inspirado de fontes não-inspiradas, da mesma forma em que pregadores as vezes usam fontes extra-bíblicas para ilustrar um ponto ou tópico.

Apócrifa e Pseudopígrafa do Novo Testamento

A pseudopígrafa do Novo Testamento são aqueles livros escritos em formas de evangelhos, atos, epístolas e apocalipses que não pertencem ao Cânon do NT. Frequentemente eles tem os nomes dos apóstolos, discípulos proeminentes, escritores Cristãos antigos (Clemente, Mateus, Barnabé) ou figuras famosas (Pilatos, Gamaliel). Eles são facilmente rejeitados por causa de sua falsa atribuição, erros, ensinos errôneos, etc. Eles também foram escritos tarde demais para serem inspirados. Alguns existem apenas como fragmentos e mais importante, a Igreja Primitiva os rejeitou como não-canônicos.

Embora eles sejam não-canônicos, muitos dos pseudopígrafos são escritos históricos e teológicos importantes, pois eles revelam as tradições, os mitos e as superstições de alguns dos primeiros Cristãos, assim como também alguns setores heréticos (Docetismo, Gnosticismo, Asceticismo).

Havia no entanto, alguns escritos que eram aceitos como inspirados e outros como genuínos – estes eram os apócrifos do NT. Eles consistiam na Epístola do Pseudo-Barnabé, 1 e 2 Coríntios de Clemente, o Pastor de Hermas, o Didaquê, o Apocalipse de Pedro, Atos de Paulo e Tecla, Evangelho de acordo com Hebreus, Epístola de Policarpo aos Filipenses e as Sete Epístolas de Inácio. Alguns dos escritores Cristãos os listavam entre os escritos sagrados: a Epístola do Pseudo-Barnabé foi citado por Clemente e Orígenes, o Pastor de Hermas foi citado por Irineu e Orígenes e o Didaquê foi citado por Clemente e Atanásio [Geisler and Nix, 1986, pp. 313-316]. Porque então nós rejeitamos estes livros como não-inspirados?

Primeiro, a maioria destes escritos mencionados acima, nunca foram intencionados a serem Escrituras inspiradas, eles eram simplesmente cartas de um Cristão para outro. Alguns destes apócrifos contém erros, fazendo deles não-inspirados. Nenhum deles têm a autoridade apostólica e todos foram escritos depois do tempo da inspiração, isto é, o Apocalipse de João. O Cânon já estava fechado por Deus. No entanto, alguns dos apócrifos são boas literaturas devocionais e nos mostram fatos a respeito da Igreja Primitiva e suas formas de adoração e culto.

Por último, devemos mencionar o fato que os gnósticos escreveram vários pseudopígrafos, introduzindo idéias estranhas e esotéricas, falsamente atribuindo a autoria a apóstolos famosos (e.g. Evangelho de Tomé) com o propósito de fazerem suas doutrinas se passarem por genuínas. Por exemplo, O Evangelho de Tomé no último versículo (114), faz relato de uma suposta conversa entre Pedro e Jesus. Pedro diz que as mulheres não são dignas de salvação e Jesus responde afirmando que Ele transformará Maria (Madalena) em um homem “pois toda mulher que fizer a si mesmo como homem entrará no reino dos céus.” Por causa desta e outras doutrinas gnósticas, os pseudopígrafos foram rejeitados pela Igreja Primitiva como heréticos.

Conclusão

Deus nos deu “tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou” (2 Pe 1:3), e nosso conhecimento dele é completo através de sua Palavra revelada. Pois certamente Jesus “operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:30-31). Os 66 livros canônicos são tudo o que precisamos, sem nenhuma adição ou subtração. Embora alguns dos livros extra-canônicos são úteis para o estudo histórico e literário, eles não possuem autoridade em regra de fé. O Cânon foi estabelecido e fechado por Deus.

Por causa disto, Deus nos deu certas diretivas. O escritor de Provérbios diz: “Toda a Palavra de Deus é pura; escudo é para os que confiam nele. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” (Pv 30:5-6). Moisés ordenou os Israelitas em Deuteronômio 4:2 “Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando.” A ordem é repetida em Dt 12:32. Portanto, nós temos a Palavra de Deus como Ele intencionou que a tivessemos – nada menos e nada mais.

Referências Usadas

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