Sunday, November 22, 2009

The Everlasting Man

The Witness of the Heretics (O Testemunho dos Hereges)

G.K. Chesterton em seu célebre livro, The Everlasting Man (1925) [O Homem Eterno], havia certa vez escrito que nenhum outro símbolo era tão forte para descrever a complexidade do Evangelho do que a figura de uma chave. O Evangelho era uma chave, e o Cristão primitivo era uma pessoa que carregava uma chave, ou melhor, o que ele proclamava era uma chave. A reivindicação maior do nascente movimento cristão era que eles tinham em sua posse uma chave, e mais, eles alegavam que somente eles tinham esta chave e nenhuma outra pessoa ou movimento possuia uma réplica igual. Assim sendo, o movimento era tão estreito quanto ele poderia ser, só que o fato era que aquela chave poderia destrancar a prisão do mundo inteiro.
O credo cristão era uma chave em três aspectos:

a) Primeiro, a chave era acima de tudo, um objeto com um tamanho definido. Na verdade, era um objeto cujo propósito dependia inteiramente de ela manter sua forma original. A filosofia cristã era uma filosofia de forma e inimiga de todas teorias deformadas. Isto é, o credo cristão diferia da infinitude sem-forma, Maniqueísta ou Budista, que fazia parte da noite escura da Àsia. Era também neste quesito, o de uma forma definida, que o credo Cristão diferia do evolucionismo, a idéia de criaturas constantemente perdendo suas formas. Um homem ficaria bravo ao saber que a chave de sua casa teria se fundido com um milhão de outras numa unidade Budista; Ele também ficaria igualmente irritado se descobrisse que sua chave tivesse igualmente crescido em seu bolso e tivesse gerado milhares de ramos evolucionistas.

b) Segundo, a forma da chave era em si mesma fantástica. A chave não era um quesito de abstrações, no sentido em que ela não era matéria de argumentações; ou ela abria a porta ou não. A chave era um fato objetivo concreto, não uma filosofia vaga discutida por filósofos e sofistas.

c) Terceiro, a chave era necessariamente um objeto com um tamanho e forma definido, de fato, a chave dependia de um padrão especifico. Quando as pessoas reclamam que a fé é complicada com conceitos teológicos difíceis e etc, eles esquecem que o mundo não era uma simples fechadura, mas sim, uma fechadura complexa, cheio de labirintos e cantos estranhos. O problema era em si um problema complicado, ele não envolvia algo meramente tão simples quanto o pecado. A fechadura estava cheio de segredos, falácias profundas e enigmáticas que existiam desde a fundação do mundo. A chave era complexa porque o problema, a fechadura, era complexa. A única coisa simples sobre a chave é que ela abria a porta.

Monday, September 7, 2009

O Nacionalismo de Esquerda é Uma Fraude

Olavo de Carvalho
(Maio de 2001)

Os apóstolos do Estado nacional, que espumam de indignação patriótica à simples idéia de privatizar alguma empresa estatal, tornam-se de repente globalistas assanhados quando um poder supranacional vem defender os interesses deles contra os interesses da pátria.

Essa conduta é tão repetida e uniforme que só um perfeito idiota não perceberia nela um padrão, e por trás do padrão uma estratégia. Desde logo, “a pátria” que eles celebram se constitui exclusivamente de estatais, onde têm sua base de operações e de onde dominam não somente uma boa fatia do Estado, mas também os sindicatos de funcionários públicos e seus monumentais fundos de pensão.

Defendendo sua toca com a ferocidade de javalis acuados, desprezam tudo o mais que compõe a noção de “pátria” e não se inibem de colocar-se a serviço de ONGs e governos estrangeiros quando atacam as instituições nacionais, desmoralizam as Forças Armadas, desmembram o território brasileiro em “nações indígenas” independentes, impõem normas à educação de nossas crianças, fomentam conflitos raciais para destruir o senso de unidade nacional e, em suma, arrebentam com tudo o que constitui e define a essência mesma da nacionalidade. Da pátria, só uma coisa lhes interessa: o dinheiro e o poder que lhes vêm das estatais.

Em segundo lugar, o nacionalismo que ostentam é de um tipo peculiar, desde o ponto de vista ideológico. É um nacionalismo seletivo e negativo, que enfatiza menos o apego aos valores nacionais do que a ojeriza ao estrangeiro - e mesmo assim não ao estrangeiro em geral, como seria próprio da xenofobia ordinária, mas a um estrangeiro em particular: o americano.

Assim, por exemplo, não sentem a menor dor na consciência quando, sob o pretexto imbecil de que toda norma gramatical é imposição ideológica das classes dominantes, demolem a língua portuguesa e acabam suprimindo do idioma duas pessoas verbais (mutilação inédita na história lingüística do Ocidente); mas, ante o simples ingresso de palavras inglesas no vocabulário - um processo normal de assimilação que jamais prejudicou idioma nenhum, e que aliás é mais intenso no inglês do que no português -, saltam ao palanque, com os olhos vidrados de cólera, para denunciar o “imperialismo cultural”.

Ser nacionalista, para essa gente, não é amar o que é brasileiro: é apenas odiar o americano um pouco mais do que se odeia o nacional. Mas, para cúmulo de hipocrisia, seu alegado antiamericanismo não os impede de celebrar o intervencionismo ianque quando lhes convém, por exemplo quando ajudam alegremente a desmoralizar a cultura miscigenada que constitui o cerne mesmo do estilo brasileiro de viver e lutam para impor entre nós a política americana das quotas raciais, em consonância com as campanhas milionárias subsidiadas pelas fundações Ford e Rockefeller.

Do mesmo modo, seu antiamericanismo fecha os olhos à entrada de novos códigos morais - feministas e abortistas, por exemplo - improvisados em laboratórios americanos de engenharia social com a finalidade precisa de destruir os obstáculos culturais ao advento da nova civilização globalista.

Redução do nacionalismo à defesa das estatais, substituição do antiamericanismo ao patriotismo positivo, adesão oportunista ao que é americano quando favorece a esquerda: desafio qualquer um a provar que a conduta constante e sistemática da chamada “esquerda nacionalista” não tem sido exatamente essa que aqui descrevo, definida por esses três pontos.

Nunca, na História, houve patriotas a quem se aplicasse tão exatamente, tão literalmente e com tanta justiça a observação de Samuel Johnson, de que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas.

Wednesday, September 2, 2009

Winston Churchill: Definição do Socialismo


“O socialismo é a filosofia do fracasso, a crença na ignorância, a pregação da inveja”

“Seu defeito inerente é a distribuição igualitária da miséria”

- Winston Churchill


Nota JSC: O grande erro do socialista é sua filosofia baseada no conceito de igualdade. Seria bom que todos fossem iguais e que não houvesse desigualdades, mas isto só valeria em um mundo perfeito, onde todos fossem honestos e ninguém fosse maldoso. Assim todos trabalhariam e não haveria desigualdades. Mas não se enganem, isto é apenas um sonho! Um sonho que nunca se tornará realidade enquanto o pecado existir, um sonho cuja probabilidade de concretização é quantativamente maior e qualitativamente melhor dentro da esperança escatológica cristã do que a utopia marxista.

O Mundo não é perfeito, e é exatamente por isto que existe um conceito mais real e pragmático do que a ilusória igualdade, um conceito que começou a existir desde a queda: a equidade. A equidade afirma que nós devemos dar a alguém aquilo que ela merece, isto é justiça. Isto quer dizer que não é certo punir o diligente por ele trabalhar demais e recompensar o preguiçoso por ele não fazer nada. Cada um é julgado pelas suas próprias obras.

Tuesday, May 19, 2009

Cessacionismo e o Falar em Línguas

OBS: Leia até o final, depois tire suas próprias conclusões.

Vincent Cheung

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto (Março/2009) - www.monergismo.com


~ 1 ~

Algumas pessoas me chamam de um Neo-Pentecostal Reformado.[1] Lembro de uma pessoa que me criticou sobre a base que o termo é inapropriado e um oxímoro. Ele pensava que um Reformado não poderia ser ao mesmo tempo um Neo-Pentecostal, e um Neo-pentecostal possivelmente não merecia ser chamado de Reformado.

Embora eu concorde que grande parte da minha teologia esteja de acordo com aqueles que são Reformados, eu não me chamo de Reformado. E embora eu afirme a continuidade dos dons sobrenaturais do Espírito, eu não me chamo de Neo-Pentecostal. Essa pessoa tem certo conceito de Reformado, e certo conceito de Neo-Pentecostal, e esses dois são incompatíveis. Mas por que eu devo ser uma dessas coisas, ou as duas? A forma como ele pensa sobre esses dois grupos torna-os incompatíveis, ou pode ser que eles sejam de fato incompatíveis; mas o que isso tem a ver comigo?

Uma pessoa poderia pensar que um cristão deveria ser Batista ou Presbiteriano, e se uma pessoa afirma os sacramentos batistas, mas o governo presbiteriano - ou qualquer coisa que seja supostamente batista, ou outra que seja supostamente presbiteriana - então ele deve estar errado, simplesmente sobre a base que, de acordo com ele, essas duas categorias são incompatíveis. Mas esse é um argumento pobre, e não faz nada para abordar se a doutrina dessa pessoa é correta ou errada. Contudo, isso nos diz que o entendimento do crítico sobre o mundo cristão é limitado a um conceito limitado de Batistas e Presbiterianos. Ele é como um sapo preso no fundo de um poço, cuja ideia dos céus é tão pequena quanto a abertura por meio da qual ele vê o firmamento.

O mundo cristão é muito amplo. Simplesmente porque uma pessoa crê na doutrina bíblica da predestinação não significa que ela tenha aprendido isso de Calvino. Pode ser que tenha aprendido de Agostinho. Ou talvez aprendeu a mesma de Hodge, Shedd ou Berkhof. Pode ser que tenha aprendido-a de Vincent Cheung, ou de você, ou do seu pastor. E quanto a isso que direi agora? Pode ser que ele leu a Bíblia por si mesmo e aprendeu dali! Mas… isso é possível? É possível que uma pessoa possa ler passagens bíblicas e aprender realmente doutrinas bíblicas? Quem já ouviu tal coisa? Mesmo que seja possível, ele é ou não um calvinista? Pode ser que ele tenha aprendido a doutrina de alguém que você nunca ouviu falar. Ora, seria muito tolo você aplicar suas críticas sobre Calvino a essa pessoa, como se ele fosse algum discípulo devoto dele, embora nunca tenha ouvido falar de Calvino.

Assim, embora rótulos e categorias possam tornar a conversa mais conveniente, eles podem também tornar a pessoa que os usa preguiçosa e descuidada. Você não pode usar um argumento com rótulos e categorias que o seu alvo não tenha obrigação de satisfazer. Quando faz isso, você está apenas mostrando que a sua maneira de entender os termos de alguma forma gera certo conflito e confusão. Você não está dizendo muito mais que isso. Sem dúvida, você não pode defender nenhuma coisa ou refutar alguém sobre essa base somente.

Dessa forma, eu advertiria você contra categorizações simplistas que resultam em representações incorretas. Há aqueles que pensam que se uma pessoa crê na continuação das manifestações sobrenaturais do Espírito, então ela deva ser como os Pentecostais - isto é, aqueles pentecostais malucos que eles conhecem. Não lhe ocorre que essa pessoa poderia ser totalmente diferente dos Pentecostais, que mesmo sua doutrina sobre os dons espirituais poderia ser vastamente diferente. E parece não lhe ocorrer que podem existir Pentecostais em algum lugar que não são malucos. É injusto para um cessacionista usar os Pentecostais como o padrão, como se uma pessoa devesse ser como os Pentecostais que ele já viu, ou um cessacionista como ele.


~ 2 ~

Quando diz respeito à continuação dos milagres, quer ocorram a uma pessoa ou por meio de uma pessoa, a doutrina da soberania de Deus resolve o assunto. Deus pode fazer tudo o que deseja, e se desejar, ele pode operar um milagre hoje. Este pode ser um milagre feito a uma pessoa, ou um milagre que parece ser realizado por meio de um instrumento humano. Deus pode fazer tudo o que deseja, incluindo milagres. Se uma pessoa questiona isso, ele tem um problema bem maior do que afirmar o cessacionismo ou não. Sua crença sobre os aspectos mais básicos sobre Deus é falha.

Os cessacionistas não objetam ao acima. Eles prontamente concordam que Deus pode fazer tudo o que deseja. Se isso é verdade, então é concebível que eu possa orar por um paciente com câncer, e se Deus quiser, ele cure a pessoa, e esta fique livre do câncer. Aqui não estou dizendo que isso acontece todas as vezes, mas somente que é concebível, dada a doutrina da soberania de Deus.

Todos os que creem em Deus concordam com isso. Contudo, na prática pouquíssimos creem. Eles dizem que creem na soberania de Deus, mas negam-na por suas obras, tendo uma forma de doutrina sã e piedade, mas negando o poder dela. Quão frequentemente os cessacionistas oram a Deus para curar o doente? Não, não estou me referindo a orações que pedem que Deus guie os médicos. Estou me referindo a petições que pedem a Deus para curar a pessoa doente. Quão frequentemente os cessacionistas sequer tentam isso? Se a doutrina deles permite a possibilidade que Deus poderia curar se desejar, então por que não pedir a ele para curar? Deus é salvador da alma, mas não do corpo? O braço do Senhor está muito encolhido, e os seus ouvidos surdos para ouvir?

Você diz: é verdade que Deus pode curar se quiser, mas talvez ele nunca mais queira curar. Como você sabe isso? Uma coisa é dizer que ele poderia não desejar curar em algumas ocasiões, mas outra é alegar que ele não mais deseja curar. Ninguém sabe se ele não quer curar, e não há nenhum tipo de evidência bíblica, ou de qualquer outro tipo, para mostrar que Deus não mais deseja realizar milagres.

Os cessacionistas alegam que querem proteger as doutrinas da suficiência e completude da Escritura. Creio que essa poderia ser uma das razões deles considerarem necessário afirmar o cessacionismo. Contudo, creio que essa não é a única razão. Há motivos ocultos por detrás dessa doutrina, tal como a incredulidade, e o medo que a incredulidade seja exposta caso eles se aventurem e afundem como Pedro, quando o Senhor o chamou para andar sobre a água. Teólogos versados não gostam de ser embaraçados. Alguns deles crucificariam antes a Cristo com suas próprias canetas, apenas para calá-lo, do que admitir que lutam com a incredulidade. Em todo caso, tem sido mostrado que a continuação das manifestações sobrenaturais do Espírito não compromete a suficiência e completude da Escritura.[2]

A afirmação da soberania de Deus significa isto: se Deus quiser fazer uma pessoa falar num idioma que ela nunca aprendeu, ele pode e fará. É simples assim. Se ele faz isso ou não é uma coisa, mas não deveria haver dúvida que é possível, mesmo hoje.

Todavia, devemos reconhecer que a questão não é resolvida afirmando-se a mera doutrina da soberania de Deus, visto que ela tem a ver com como ele usa essa soberania com relação aos dons espirituais, e o que ele revelou na Escritura sobre isso. Também, quando diz respeito aos dons espirituais, estamos nos referindo a um modo particular da manifestação do poder de Deus, a saber, por meio de instrumentos humanos como dons espirituais. Assim, é reconhecido que o assunto é complexo, embora permaneça que o fundamento para a discussão deve ser a soberania de Deus, que ele pode e fará tudo o que deseja. E em conexão com os dons espirituais, eu direi novamente que, embora haja muitos versículos na Escritura nos ordenando a usar os dons espirituais, não existe nenhuma evidência bíblica, ou qualquer outro tipo, que sequer venha a sugerir que esses tenham cessado.

~ 3 ~

Deixe-me aplicar primeiro meu argumento simples contra o cessacionismo ao caso do falar em línguas. Paulo escreve: “Não proíbam o falar em línguas” (1 Coríntios 14.39, NVI). Mas se todos os dons espirituais cessaram, então as línguas cessaram. E se as línguas cessaram, então todas as alegações de falar em línguas hoje são falsas. Se todas as alegações de falar em línguas hoje são falsas, estão devemos proibir o falar em línguas. Em outras palavras, se o cessacionismo é correto, então estamos obrigados a fazer exatamente o oposto do que Paulo ordena nesse versículo sobre a base que a situação mudou, de forma que a mesma preocupação apostólica requereria que proibíssemos todo o falar em línguas.

Contudo, transformar “Não proíbam o falar em línguas” em “Sempre proíbam o falar em línguas” requereria um argumento bíblico que fosse igualmente explícito, ou se este deve vir por dedução ou inferência, que seja um raciocínio perfeito, infalível, sem qualquer possibilidade de erro ou lugar para crítica. De outra forma, ninguém tem autoridade para dizer que o falar em línguas cessou, e ainda menos para proibir o falar em línguas.

Jesus diz: “Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus” (Mateus 5.19). Deus me ordena: “Não matarás”. Se você deseja promover uma doutrina que requeira de mim mudar isso para, “sempre matarás”, então antes de eu ir para a matança, irei demandar que você produza um mandamento bíblico direto que substitua o primeiro, ou um argumento bíblico apoiando o novo mandamento ou obrigação que seja claro e perfeito, sem qualquer possibilidade de erro ou lugar para crítica. Se eu percebo sequer a mínima falha ou fraqueza, irei permanecer com o que é claro e direto, isto é, “não matarás”.

Da mesma forma, se ensino “não proíbam o falar em línguas” e você ensina “sempre proíbam o falar em línguas” (ou uma doutrina que leve a isso), então um de nós deve estar errado. Para me mostrar que sou eu quem está em erro, eu demandaria que você produza um argumento bíblico que seja tão claro, forte, perfeito e infalível como aquele que diz, “não proíbam o falar em línguas”.

Francamente, contra essa consideração, eu teria muito receio de ensinar o cessacionismo. E eu me pergunto como podemos justificar a decisão de permitir alguém permanecer no ministério, quando esta pessoa continua ensinando o cessacionismo após ouvir este simples argumento. Se ele não pode respondê-lo - se não pode produzir um argumento infalível para o cessacionismo - mas continua a ensinar a doutrina, isso pode significar apenas que ele conscientemente promove rebelião contra o Senhor. Que direito temos, então, de nos refrear de removê-lo do ministério? Eu tenho autoridade para proteger tal pessoa da disciplina da igreja? Mas eu não sou mais forte que o Senhor. Nessas circunstâncias, o cessacionismo não é uma doutrina sobre a qual argumentar, mas um pecado do qual se arrepender. Os cristãos deveriam não somente evitar o cessacionismo, mas deveriam temer afirmá-lo, pois equivale a um desafio direto e deliberado aos mandamentos de Deus.

Você pode dizer: “Tudo bem dizer que não devemos proibir falar em línguas, mas devemos proibir a falsificação”. Como isso é relevante neste ponto? Se na tentativa de se opor à falsificação, você se opõe a todas as alegações de falar em línguas como uma questão de princípio, então você volta a desafiar o mandamento de Paulo novamente. Se você admite que não devemos proibir falar em línguas, mas devemos julgar cada caso por seu próprio mérito, eu concordaria contigo, mas então você não mais seria um cessacionista.

Agora que mencionamos a possibilidade da falsificação, a discussão finalmente chega à natureza das línguas. Atos 2 nos diz que o Espírito Santo capacitou os discípulos a falar em idiomas que eles nunca aprenderam. Esses eram idiomas humanos conhecidos e reconhecidos pelos estrangeiros que estavam presentes. Algumas vezes é suposto que foi um milagre de audição, mas os estrangeiros ouviram os discípulos falar em seus próprios idiomas porque os discípulos estavam falando no idiomas deles. A Escritura declara que eles falaram o que o Espírito lhes deu. Ela não diz que o Espírito alterou a audição da audiência. O falar em línguas em 1 Coríntios 12-14 é o mesmo tipo de manifestação que aquela em Atos 2. Não há razão para pensar de outra forma.

Visto que as expressões consistiam de idiomas humanos, como demonstrado em Atos 2 e também indicado em 1 Coríntios 13.1, há certas características que deveríamos esperar. Um idioma humano inclui um vocabulário substancial, ou palavras, que formam sentenças. Em linguagem ordinária, sentenças são marcadas por pausas e inflexões, que frequentemente determinam o significado preciso dessas sentenças. Por exemplo, uma inflexão poderia mudar o que seria entendido como uma declaração de fato numa pergunta. Dessa forma, “você irá à igreja hoje”, muda para “você irá à igreja hoje?”. Uma inflexão poderia também tornar uma declaração ordinária numa exclamação, ou mesmo numa acusação. Há muitas outras coisas que podemos mencionar sobre as características dos idiomas humanos, mas o ponto é que elas exibem traços e padrões complexos que são discerníveis.

Menciono isso para dizer o seguinte: Julgando a partir da minha experiência admitidamente limitada, a maioria das pessoas que falam em línguas provavelmente não falam em idiomas reais. Sem dúvida, minha experiência não reflete o número total daqueles que alegam falar em línguas. A alegação é que a maioria daqueles que tenho ouvido provavelmente não falam em idiomas humanos, e há provavelmente muitos outros como eles. Quando eles supostamente falam em línguas, seus sons não exibem a variedade e complexidade esperada em idiomas humanos reais. Eles com muita frequencia repetem somente uma, algumas vezes duas ou três sílabas em rápida sucessão, como “da-da-da-da-da-da-da”, or “wa-ka-la-ka-wa-ka-la-ka-wa-ka-la-ka-wa-ka-la-ka”, ou “moshimoshimoshimoshimoshi”.

Há três possíveis explicações para isso:

Primeiro, eles podem estar falando em código Morse, ou algo parecido. Contudo, mesmo o código Morse deve diferenciar seus sinais por padrões e pausas. Mas quando uma pessoa repete a mesma sílaba sessenta vezes sem nenhuma pausa, e após tomar fôlego, repete a mesma sílaba outras quarenta vezes, é difícil crer que ele esteja comunicando alguma mensagem que tenha significado. Alguém pode também objetar que supõem-se que o falar em línguas refira-se a um idioma humano ordinário, mas isso não pode resolver a questão, visto que o código Morse ou algo parecido pode se qualificar de modo concebível.

Segundo, é suposto que alguns deles poderiam estar falando no idioma dos anjos, que não poderia exibir as mesmas características que os idiomas dos homens. Contudo, mesmo que 1 Coríntios 13.1 de fato conceda a possibilidade que alguém poderia falar no idioma dos anjos, as mesmas preocupações com respeito ao código Morse se aplicam. Deve haver padrões discerníveis para diferenciar entre os sinais para que haja um idioma, pelo menos quando este é falado por meio de homens. E se o idioma dos anjos não pode ser falado por meio de homens de uma forma que haja padrões discerníveis, então eles não estão na realidade falando no idioma dos anjos, visto que aparentemente este idioma não pode ser falado por meios dos homens de forma alguma.

Terceiro, e parece ser o mais provável, aqueles que falam sem qualquer padrão discernível não estão falando em idiomas humanos, e não estão falando em línguas de forma alguma. Não estou dizendo que não existe nenhum falar em línguas genuíno hoje. Tenho afirmado com muita força que a manifestação continua de acordo com a vontade de Deus. Mas se aqueles que falam em línguas desejam exercer o dom genuíno, e se desejam ser levados à sério, eles devem satisfazer o padrão. Qualquer coisa menor que um código Morse é inaceitável, pois não seria idioma de forma alguma. E devemos acreditar que todas ou a maioria das pessoas que falam em línguas o fazem em código? Não, pois as línguas genuínas serão idiomas humanos, e soarão como idiomas humanos. Deveríamos suspeitar de qualquer pretensa manifestação de falar em línguas que careça de qualquer padrão ou complexidade discernível.

Um fator que tem contribuído para as ocorrências predominantes de línguas falsas é a negligência do fato que o falar em línguas é uma manifestação do Espírito - é algo que o Espírito impele a sair. Portanto, não é algo que um homem pode ensinar a outro. Os Pentecostais algumas vezes ensinam os novatos: “Apenas comece a falar. Diga, ‘da-da-da-da-ka-ka-sha-la-la… aí esta´! Você recebeu!” Não, nenhum deles tem coisa alguma. O dom é uma manifestação do Espírito, e quando aparece, há uma qualidade celestial, uma inteligência evidente por detrás dele. Não é algo que possa ser ensinado, praticado ou reforçado pela carne.


~ 4 ~

Recentemente, ouvi um sermão sobre a abordagem bíblica ao crescimento da igreja por John MacArthur. Ele insistiu que os métodos de crescimento de igreja que são baseados em teorias de negócio e marketing são perversos e destrutivos. Antes, ele propôs que os cristãos deveriam retornar a Atos dos Apóstolos, visto que ali o método modelado pelos primeiros discípulos é apresentado. Ele não se referia a algum modelo do Novo Testamento num sentido geral, mas foi inflexível que devemos seguir o Livro de Atos.

Então, no curso do sermão, ele ofereceu cinco princípios que tinha derivado: A igreja primitiva tinha 1) Uma mensagem transcendente, 2) Uma congregação regenerada, 3) Uma perseverança resoluta, 4) Uma pureza evidente, e 5) Uma liderança qualificada. Contudo, qualquer expositor honesto deveria ter adicionado, 6) Um ministério de falar em línguas, curar coxos, ressuscitar mortos, expelir demônios, destruir mentirosos, romper prisões, sacudir casas, amaldiçoar feiticeiros, ter visões, predizer o futuro e realizar milagres. Todas essas coisas são registradas no Livro de Atos, não são?

Sem dúvida, eu não esperava que MacArthur se embaraçasse com a verdade. Sabendo que ele é um cessacionista extremo, esperava uma menção desse item antes de rejeitá-lo, mas nada foi dito. Ele nem mesmo o mencionou. Mas eu pensei que deveríamos retornar ao padrão no Livro de Atos. Qual Livro de Atos ele estava lendo? Esse é o campeão da pregação expositiva que tantos cristãos adoram? Mas eu pensei que a pregação expositiva compeliria o pregador a abordar tópicos com os quais ele não se sente confortável, e apresentar o que ele poderia achar difícil de aceitar. O que aconteceu com isso?

Eu vou lhe dizer qual é o padrão no Livro de Atos - é o padrão de não permitir que a desonestidade e o preconceito obscureçam os ensinos claros da palavra de Deus. Se nos forçássemos a ser caridosos sem justificação, poderíamos dizer que MacArthur evitou a questão para economizar tempo de mencionar algo no qual ele não crê. Mas ele violou, no mínimo superficialmente, seu próprio padrão de pregar a Palavra de Deus como ela está escrita. É muito difícil, se não impossível, excusar alguém de mencionar os milagres quando ele mesmo, com tanto zelo e indignação, repreende a igreja por falhar em seguir o padrão no Livro de Atos.

Jesus disse que receberíamos poder quando o Espírito Santo viesse sobre nós. Assim, onde está o poder? Você que não acredita na continuação dos dons sobrenaturais: Você diz que tem o Espírito, que todos os crentes têm o Espírito, mas onde está o poder? Seu hipócrita - você finge ter isso redefinindo o conceito. E você que crê na continuação dos dons sobrenaturais: Você alega ter o Espírito, mas onde está o poder? Seu hipócrita - você insulta o Espírito implementando um padrão baixo, de forma que as falsidades e os excessos são numerados juntamente com o que é genuíno, se é que há manifestações de fato genuínas entre vocês. Quando Elias desafiou os falsos profetas, ele não tornou isso fácil para si mesmo ou para o Senhor. Ele não derramou gasolina nos sacrifícios, mas derramou muita água. Ele era da opinião que se Deus não fizesse isso, então que não fosse feito, mas se Deus fizesse, então que não houvesse dúvida que foi um milagre do Senhor, e não dos esquemas e artimanhas dos homens.

Vocês dois dizem que têm o Espírito, mas quando os discípulos foram cheios com o Espírito no Livro de Atos, houveram tamanhas manifestações de poder que fizeram os incrédulos tremer. Onde está o poder? É verdade que uma demonstração de poder divino nem sempre equivale a milagres, mas existe alguma manifestação de poder entre vocês? Qualquer uma que seja? Onde está a autoridade divina em sua pregação? Onde está a sabedoria divina em seu conselho? Onde está a ousadia divina em suas ações? Você tem seus métodos expositivos, seus diplomas de seminário, suas ensaios de ordenação, e os livros deste ou daquele teólogo em sua biblioteca. Mas você não tem o poder.

Existem aqueles que pensam que o meu ministério não tem valor. Eu não me dirigirei a eles agora. Mas se você vê qualquer fé, sabedoria, poder, vida, zelo, ousadia, qualquer autoridade de outro mundo em mim, então que seja conhecido que isto vem do Espírito de Deus. Ele me salvou e me deu um santo chamado, até mesmo a obra do ministério. E ele me deu o seu Espírito Santo, para que eu pudesse ser capacitado a viver esta nova vida, em verdade e santidade, e para realizar as obras que ele preordenou para que eu fizesse. Não estou dizendo tudo isso simplesmente porque penso que deveria, mas estou bem consciente do poder do Espírito pelo qual eu penso e trabalho, e a diferença que ele faz. Eu posso lhe dizer o que ele faz por mim, e o que sou incapaz de fazer sem ele.

Esta é a herança de todo cristão, e o equipamento necessário de todo ministro do evangelho. Deus não nos deu um espírito de fraqueza, mas um espírito de poder - poder para perceber, crer, declarar, suportar e poder para confrontar e destruir o cinismo e a incredulidade.



[1] Coloquei em maiúsculo a palavra “Neo-Pentecostal” porque ela é usada num sentido que se refere a um tipo ou grupo de pessoas comumente associados com a crença na continuação dos dons sobrenaturais do Espírito. Ele é mais que um termo muito amplo, referindo-se a qualquer um que creia na continuação dos dons sem outras suposições atribuídas a tal pessoa. Embora eu reconheça as diferenças entre Pentecostais e Neo-Pentecostais, visto que este artigo não aborda essas diferenças, usarei os dois termos como se fossem intercambiáveis, focando-me apenas em sua similaridade em afirmar a continuidade dos dons sobrenaturais do Espírito.

[2] Veja Don Codling, Sola Scriptura and the Revelatory Gifts.

Saturday, May 16, 2009

A Verdade é Relativa?

(Um diálogo entre Sócrates e Protágoras)

Protágoras: A verdade é relativa. É somente uma questão de opinião.
Sócrates: Você quer dizer que a verdade é mera opinião subjetiva?
Protágoras: Exatamente. O que é verdade para você, é verdade para você, e o que é verdade
para mim, é verdade para mim. A verdade é subjetiva.
Sócrates: Você quer dizer realmente isso? Que minha opinião é verdadeira em virtude de ser minha opinião?
Protágoras: Sem dúvida!
Sócrates: Minha opinião é: A verdade é absoluta, não opinião, e que você, Sr. Protágoras, está absolutamente em erro. Visto que é minha opinião, então você deve conceder que ela é verdadeira segundo a sua filosofia.
Protágoras: Você está absolutamente correto, Sócrates.

***
A filosofia por trás do Pós-Modernismo não é nova, Sócrates já havia demonstrado a inconsistência lógica do relativismo há mais de 2400 anos atrás.

Salomão certa vez disse: "Não há nada novo debaixo do sol" (Ec 1:9)

Sofismas que previamente existiram, ressurgem em nossos dias com uma nova roupagem semântica, não há nada de novo, somente coisas velhas acontecendo a pessoas novas.

Para ouvir 258 questões teológicas, logicamente respondidas, clique aqui.

Sunday, May 10, 2009

Em Busca do Jesus Histórico

Estava prestes a traduzir um longo artigo/estudo em inglês de 17 páginas acerca do tão chamado Jesus Histórico, mas devido a preguiça (que não é de Deus - (^_^)), resolvi optar pelo caminho mais curto.

Bruno Uchôa do site Monergismo (bons calvinistas) foi mais ligeiro que eu, e traduziu uma ótima síntese do William Lane Craig.

Para ler a matéria, clique aqui.
(O artigo está em formato PDF, tu podes abaixar diretamente para seu computador)

Caso estejas interessado em ler o artigo em inglês, clique aqui.

Canonicidade Bíblica (3/3): Livros Extra-Bíblicos

STAFF, A. P. The Canon and Extra-Canonical Writings.
(Copyright © 2003 Apologetics Press, Inc.)

Tradução e Adaptação: J.S. Cavani


Todo tipo de literatura fora da Bíblia é considerada extra-bíblica. Tudo que seja de natureza bíblica que não faça parte do cânon bíblico é considerado extra-canônico, este tipo de material inclui os apócrifos e os pseudopígrafos. Estes livros são compostos de profecias, histórias, atos, evangelhos e apocalipses, muitos deles alegando autoria de homens ou mulheres mencionados na Bíblia. Existem livros que já foram atribuidos à Adão, Enoque, Barnabé, Tomé, Paulo e outros mais. Alguns são compilações contendo atos de homens como Pôncio Pilatos, Paulo, Pedro, e outros notórios homens do Novo Testamento. Os tópicos discutidos por tão vasta literatura são extensivos, desde horóscopos anuais (i.e. Tratado de Sem) até a infância de Jesus como no Evangelho da Infância de Tomé.

O Velho Testamento – Apócrifos e Pseudopígrafos

Há dois tipos de escritos extra-canônicos no Antigo Testamento: apócrifos e pseudopígrafos. Quando ouvimos falar sobre os apócrifos (também chamados deuterocanônicos), os livros que primeiramente vêm a mente são aqueles conhecidos como a Apócrifa. A Apócrifa são um subgrupo de escritos apócrifos, que literalmente querem dizer “escondidos.” Estas palavras (Apócrifa e apócrifos) são derivados do Grego apokruphos, e se referem aos livros que as Igrejas Católicas, Russa Ortodoxas, Grega Ortodoxas aceitam como canônicas, mas que o Cânon Hebraico rejeita. O Cânon Católico e Ortodoxo variam, não apenas do Cânon Protestante e Hebraico, mas também entre eles. A Igreja Católica considera Tobias, Judite, 107 versículos espalhados pelo livro de Ester, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, a Carta de Jeremias, a Oração de Azarias, a Canção dos Três Jovens, Susana, Bel e o Dragão, 1 e 2 Macabeus como canônicos. 1 e 2 Esdras e a Oração de Manassés foram adicionados como um apêndice no fim do Novo Testamento e são considerados não-canônicos pela Igreja Católica Romana. A Igreja Ortodoxa Grega aceita o Cânon Católico, mas adiciona 1 Esdras, Salmo 151, a Oração de Manassés e 3 Macabeus ao seu Cânon enquanto que 4 Macabeus é colocada no apêndice. Em adição ao Cânon Católico, a Igreja Ortodoxa Russa considera 1 e 2 Esdras (os quais eles chamam de 2 e 3 Esdras), Salmo 151 e 3 Macabeus como canônicos. Porque então estes livros adicionais são considerados canônicos por alguns e não por outros?

Assim que a Septuaginta (tradução grega do AT) ganhou preeminência ao redor do mundo, um grupo de escritos foi adicionado aos tradicionais 24 livros do Cânon Hebraico – estes eram a Apócrifa. Porque estariam estes livros no AT Grego, mas não no AT Hebraico? No seu livro The Life and Times of Jesus the Messiah, Alfred Edersheim deu uma explicação provável para o desenvolvimento de ambas a Apócrifa e a pseudopígrafa do AT. Com a tradução do AT em Grego por volta de 250 AC, os Judeus (particularmente aqueles que estavam fora da Palestina) começaram a transição do pensamento judaico-tradicional para o pensamento judeo-helenistico. Isto envolveu a mistura das filosofias gregas, entre as quais estavam o Estoicismo e o Epicurismo, com a teologia do AT. Com este desenvolvimento, um novo grupo de escritos foi procurado, escritos que pudessem reconciliar as visões opostas do Judaísmo e do Helenismo. O resultado foi a Apócrifa e a pseudopígrafa do AT – livros que eram o meio-caminho entre a verdade do Antigo Testamento e a mitologia e filosofia humanística do mundo Greco-Romano (1972, 1:31-39). É por causa disto que a Apócrifa, a qual teve uma significância histórica para a Judéia e uma significância teológica para os Judeus Helenisticos, foram incluidos no Cânon Grego do AT.

Embora o Cânon Hebraico nunca incluiu a Apócrifa, os helenistas e alguns dos cânons cristãos e manuscritos os incluiram. As cópias existentes da Septuaginta os incluiram, alguns dos textos antigos da patrística fazem citações deles e alguns dos Pais da Igrega (Irineu, Tertuliano, Clemente) os consideravam canônicos (Geisler e Nix, 1986, pp. 266-267). Alguns dos Concílios da Igreja Católica (começando com Hipo em 393 e culminando com o Concílio de Trento em 1546) os considerou canônicos. Porque então nós os rejeitamos? Uma das objeções é que eles foram escritos depois que as revelações do Antigo Testamento haviam cessado (depois de Malaquias) e antes que as revelações do Novo Testamento começassem. Embora certos livros como 1 e 2 Macabeus contém registros históricos precisos, eles possuem o mesmo valor que os registros históricos escritos por Tácito ou Heródoto. Sem dizer é claro que muitos dos apócrifos contém erros e contradições. A objeção maior é que eles não estão incluidos na Bíblia Hebraica. Os Judeus, os guardiões da Antiga Aliança, os rejeitaram. O Cânon Hebraico está completo e fechado, consistindo dos 39 livros que fazem parte do nosso AT. Este Cânon foi fechado nos dias de Esdras e não deve ser re-aberto para incluir a Apócrifa. Já a pseudopígrafa (falsos escritos) são um conjunto de escritos, falsamente atribuídos a homens da época do AT. Tais escritos foram escritos entre 200 AC - 200 AD e incluem livros apocalípticos, testamentos, lendas, literatura filosófica, provérbios, orações e salmos. O fato de não estarem inclusos no Cânon é devido ao fato de conterem falsas informações a respeito de seus autores. Se um livro mente a respeito de sua origem, provavelmente ele contém falsidades. Se um livro requer uma falsa atribuição em ordem para ser canônico, então ele contém características que fazem sua inspiração e canonicidade suspeita. Enfim, a pseudopígrafa contém misturas de mitologia grega com teologia vetero-testamentária, contradições óbvias, erros nas áreas de geografia e história, e por esta razão foram rejeitados e chamados de falsos escritos. Embora haja possíveis citações ou alusões em Judas e 2 Timóteo a livros como 1 Enoque, o Testamento de Moisés e o livro de Janes e Jambres, isto não os torna inspirados. Assim como poetas pagãos são citados por Paulo em Atos e Tito, o relato bíblico deles foi um uso inspirado de fontes não-inspiradas, da mesma forma em que pregadores as vezes usam fontes extra-bíblicas para ilustrar um ponto ou tópico.

Apócrifa e Pseudopígrafa do Novo Testamento

A pseudopígrafa do Novo Testamento são aqueles livros escritos em formas de evangelhos, atos, epístolas e apocalipses que não pertencem ao Cânon do NT. Frequentemente eles tem os nomes dos apóstolos, discípulos proeminentes, escritores Cristãos antigos (Clemente, Mateus, Barnabé) ou figuras famosas (Pilatos, Gamaliel). Eles são facilmente rejeitados por causa de sua falsa atribuição, erros, ensinos errôneos, etc. Eles também foram escritos tarde demais para serem inspirados. Alguns existem apenas como fragmentos e mais importante, a Igreja Primitiva os rejeitou como não-canônicos.

Embora eles sejam não-canônicos, muitos dos pseudopígrafos são escritos históricos e teológicos importantes, pois eles revelam as tradições, os mitos e as superstições de alguns dos primeiros Cristãos, assim como também alguns setores heréticos (Docetismo, Gnosticismo, Asceticismo).

Havia no entanto, alguns escritos que eram aceitos como inspirados e outros como genuínos – estes eram os apócrifos do NT. Eles consistiam na Epístola do Pseudo-Barnabé, 1 e 2 Coríntios de Clemente, o Pastor de Hermas, o Didaquê, o Apocalipse de Pedro, Atos de Paulo e Tecla, Evangelho de acordo com Hebreus, Epístola de Policarpo aos Filipenses e as Sete Epístolas de Inácio. Alguns dos escritores Cristãos os listavam entre os escritos sagrados: a Epístola do Pseudo-Barnabé foi citado por Clemente e Orígenes, o Pastor de Hermas foi citado por Irineu e Orígenes e o Didaquê foi citado por Clemente e Atanásio [Geisler and Nix, 1986, pp. 313-316]. Porque então nós rejeitamos estes livros como não-inspirados?

Primeiro, a maioria destes escritos mencionados acima, nunca foram intencionados a serem Escrituras inspiradas, eles eram simplesmente cartas de um Cristão para outro. Alguns destes apócrifos contém erros, fazendo deles não-inspirados. Nenhum deles têm a autoridade apostólica e todos foram escritos depois do tempo da inspiração, isto é, o Apocalipse de João. O Cânon já estava fechado por Deus. No entanto, alguns dos apócrifos são boas literaturas devocionais e nos mostram fatos a respeito da Igreja Primitiva e suas formas de adoração e culto.

Por último, devemos mencionar o fato que os gnósticos escreveram vários pseudopígrafos, introduzindo idéias estranhas e esotéricas, falsamente atribuindo a autoria a apóstolos famosos (e.g. Evangelho de Tomé) com o propósito de fazerem suas doutrinas se passarem por genuínas. Por exemplo, O Evangelho de Tomé no último versículo (114), faz relato de uma suposta conversa entre Pedro e Jesus. Pedro diz que as mulheres não são dignas de salvação e Jesus responde afirmando que Ele transformará Maria (Madalena) em um homem “pois toda mulher que fizer a si mesmo como homem entrará no reino dos céus.” Por causa desta e outras doutrinas gnósticas, os pseudopígrafos foram rejeitados pela Igreja Primitiva como heréticos.

Conclusão

Deus nos deu “tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou” (2 Pe 1:3), e nosso conhecimento dele é completo através de sua Palavra revelada. Pois certamente Jesus “operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:30-31). Os 66 livros canônicos são tudo o que precisamos, sem nenhuma adição ou subtração. Embora alguns dos livros extra-canônicos são úteis para o estudo histórico e literário, eles não possuem autoridade em regra de fé. O Cânon foi estabelecido e fechado por Deus.

Por causa disto, Deus nos deu certas diretivas. O escritor de Provérbios diz: “Toda a Palavra de Deus é pura; escudo é para os que confiam nele. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” (Pv 30:5-6). Moisés ordenou os Israelitas em Deuteronômio 4:2 “Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando.” A ordem é repetida em Dt 12:32. Portanto, nós temos a Palavra de Deus como Ele intencionou que a tivessemos – nada menos e nada mais.

Referências Usadas

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Saturday, May 2, 2009

Canonicidade Bíblica (2/3): Novo Testamento

Autoria: J. Hampton Keathley, III , Th.M. (www.bible.org)
STAFF, A. P. The Canon and Extra-Canonical Writings.
(Copyright © 2003 Apologetics Press, Inc.)

Tradução, Conflação e Adaptação: J.S. Cavani

Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim” (João 15:26)

Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” (Ap 22:18-19)


O Processo de Reconhecimento do Cânon do Novo Testamento

Quais foram os fatores que levaram ao reconhecimento do Cânon Neo-Testamentário como nós o temos hoje? Por quase 20 anos depois da ascensão de Cristo, nenhum dos livros do NT tinham sido escritos. Tiago foi, sem dúvida nenhuma, a primeira carta a ser escrita entre 45-50 AD, e o Apocalipse, o último a ser escrito por volta de 90 AD. Mas muitas coisas começaram a acontecer que promoveram a formação do Cânon do Novo Testamento. Entre elas podemos citar: (1) escritos espúrios assim como ataques contra os escritos genuínos foram um fator. Marciano, por exemplo, rejeitou o Antigo Testamento e todos os escritos do Novo Testamento, exceto as cartas de Paulo (ele também tinha alterado o Evangelho de Lucas, para se encaixar com sua doutrina). (2) O conteúdo do NT testificava a sua própria autenticidade, e por isto, estes escritos foram naturalmente coletados, sendo reconhecidos como canônicos. (3) Escritos apostólicos eram usados na adoração pública, assim, era necessário determinar qual destes escritos eram canônicos. (4) Devido ao edito do Imperador Diocleciano em 303 AD, demandando que todos os livros sagrados fossem queimados, isto acabou resultando na coleção do Novo Testamento.

Podemos ainda dividir o processo de reconhecimento do cânon do NT em dois períodos.

(1) Era Apostólica. Os livros eram inspirados no momento em que foram escritos, assim sendo eles já eram canônicos e possuiam autoridade como sendo da parte de Deus. A responsabilidade da igreja era simplesmente atestar o fato da inspiração. Este processo começou imediatamente com os escritores reconhecendo que seus próprios escritos eram a Palavra de Deus (Col. 4:16; 1 Ts 4:15). Eles também reconheceram que outros escritos do NT eram Escrituras em par de igualdade com o AT. Em 1 Tm 5:18, Paulo cita Dt 25:4 e Lc 10:7, referindo a ambas passagens como Escritura. Pedro do mesmo modo atesta que os escritos de Paulo são Escrituras (2 Pe 3:15-16). Adicionando a isto, as epístolas do NT estavam sendo lidas e circuladas entre as igrejas como revelação autoritária de Deus (cf Col. 4:16; 1 Ts 5:27).

(2) Era Pós-Apostólica.

1. Clemente de Roma (95 AD) mencionou cerca de 8 livros neo-testamentários numa carta;
2. Inácio de Antioquia (115 AD) havia reconhecido 7 livros;
3. Justino Mártir (110-165 AD). Na sua Primeira Apologia, referiu-se aos evangelhos contendo o relato da última ceia, embora ele não mencionou os títulos ou autores. Mais tarde, ele mencionou que os escritos dos apóstolos eram lidos junto com os dos profetas na assembléia dominical.
4. Policarpo, um discípulo de João (108 AD) tinha mecionado 15 epístolas. Isto não quer dizer que os pais da igreja não reconheciam o restante das cartas como canônicas, mas estas foram aquelas que eles mencionaram em suas correspondências.
5. Irineu (185 AD) através de seus escritos, havia mencionado 21 livros.
6. Hipólito (170-235 AD) reconhecia 22 livros. Os livros problemáticos neste tempo eram Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 & 3 João.
7. Orígenes (185-254 AD) mencionou Mateus, Marcos, Lucas e João como genuínos. Ele também mencionou os escritos de Paulo, Atos, 1 Pedro, 1 João e Apocalipse. Ele listou 2 Pedro, 2 e 3 João como disputados por alguns. No entanto, na sua homilia sobre Josué, ele listou os 27 livros do Novo Testamento como escrituras que aboliram a idolatria e falsas filosofias, demonstrando que estas eram escrituras aceitas.
8. Cânon Muratório. Ainda mais importante foi o testemunho do Cânon Muratório (170 AD), o qual foi uma compilação de livros reconhecidos como canônicos no princípio da igreja. O Cânon Muratório incluia todos os livros do NT, exceto Hebreus, Tiago, as epístolas de Pedro e uma epístola de João. O cânon muratório aceitava também o apócrifo Sabedoria de Salomão, afirmando que alguns também tinham aceito o Apocalipse de Pedro. A respeito do Pastor de Hermas, o cânon dizia que ele era uma composição recente, não inspirada.
9. Eusébio (270-339 AD), o famoso historiador, listou os 4 evangelhos, Atos, epístolas de Paulo, 1 João e 1 Pedro como escritos universalmente aceitos. Os livros disputados eram Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse.
10. Atanásio (296-373 AD) listou os 27 livros como canônicos. A partir de então, os livros canônicos universalmente aceitos permaneceram até hoje. O cânon estava completo.

Cristãos primitivos em outras partes do mundo receberam certos livros e os traduziram em suas línguas nativas. Evidências das versões mais antigas do NT (Antigo Siríaco, Antigo Latim, e Antigo Cóptico) mostram quais livros foram aceitos no segundo século. O Antigo Siríaco continham todos os livros do NT, exceto 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. O Antigo Latim continham todos menos Hebreus, Tiago e 2 Pedro. O Cóptico existia em dois dialetos, Sahídico, usado no Alto Egito, e Bohaírico, usado no Baixo Egito. Ambas estas versões do Cóptico continham os 27 livros do NT, embora algumas vezes o Apocalipse fosse colocado num volume separado, pois não estavam seguros de seu status canônico. Tais livros foram traduzidos, porque eles eram livros que tinham autoridade, e eles tinham autoridade pois as igrejas acreditavam que eles vieram das mãos dos apóstolos. Seria possível que estas igrejas estivessem totalmente enganadas a respeito de tais fatos em tão pequeno intervalo de tempo?

Embora estes cristãos primitivos, versões primitivas e concílios mostrassem uma progressão da aceitação do cânon, eles não estabeleceram o cânon. Deus estabeleceu o cânon através da inspiração de seus escritores. Embora houvesse disputas sobre certos livros, eventualmente a maioria dos Cristãos os aceitaram. O cânon do NT foi gradualmente formado, no mesmo modelo que o AT, no curso dos quatro primeiros séculos, sob a direção do mesmo Espírito. Até mesmo Martinho Lutero, que aparentemente rejeitou o livro de Tiago, devido ao conflito entre fé e obras, no prefácio da tradução do seu Novo Testamento para o Alemão considerou Tiago inspirado, embora fosse sua opinião que Tiago não tivesse nenhum valor quando comparado com as epístolas de Paulo.

O Teste da Canonicidade

A questão naturalmente surge, quais processos a igreja primitiva usou para reconhecer os livros que eram canônicos e os que não eram? Partindo do princípio de que a canonicidade é determinda e estabelecida por Deus, e meramente descoberta pelos homens, foram usados os seguintes testes para discernir quais livros eram canônicos.

(1) Autentificação do lado divino – Inspiração. O livro dava evidência de ser inspirado por Deus? Era ele de conteúdo espiritual apropriado? Edificava ele a igreja? Era ele doutrinamente preciso? Os apócrifos e a pseudopígrafa foram rejeitados por não passarem este teste. O livro deveria conter evidências de valores espirituais morais altíssimos que refletissem o trabalho do Espírito Santo. Sem dizer é claro, que o próprio Espírito de Deus testificava com os crentes que o que eles liam era a Palavra de Deus.

(2) Autentificação no lado humano: (a) Era o autor um apóstolo ou teve ele o endorso de um apóstolo? Marcos escreveu o Evangelho de Marcos, mas sob a supervisão de Pedro. Lucas era um companheiro de viagem de Paulo que escreveu sob sua autoridade. (b) Aceitação universal era outro fator. Ou seja, era o livro aceito pela igreja em geral? A igreja era o corpo vivo de Cristo, a comunidade Cristã primitiva tinha o sacerdócio universal, a divisão que passaria a existir séculos mais tarde entre o clero e os leigos era inexistente na igreja primitiva, pois era o consenso dos membros, guiados por um mesmo espírito, batizados num mesmo batismo, guiados por um mesmo Senhor que tinha peso e autoridade.O reconhecimento dado por um livro particular pela igreja era importante. Por este padrão, vários livros foram rejeitados. Havia livros que foram aceitos por uns poucos, mas depois foram rejeitados, pois não gozavam de aceitação universal. Havia outros livros que alguns questionaram por causa de dúvidas sobre o autor (se era apóstolo ou não), mas não por causa do conteúdo, mas mais tarde foram aceitos pela igreja universal.

O Quão Confiável é o Novo Testamento?

Existe hoje mais de 5,300 manuscritos gregos conhecidos do NT. Adicione a isto, 10,000 vulgatas latinas e 9,300 versões antigas (MSS) e nós teremos mais de 24,000 cópias de manuscritos de porções do NT. Isto quer dizer que nenhum outro documento em toda antiguidade sequer consegue aproximar a este número. Em comparação, a Ilíada de Homero é a segunda com apenas 643 manuscritos existentes hoje. A primeira cópia completa preservada de Homero data do Século 13 AD. Este contraste é extremamente significante.

Talvez, nós podemos apreciar o quão rico o NT é em atestação de manuscrito quando nós comparamos o material textual com outros trabalhos históricos antigos. As Guerras da Gália de César (composta entre 58-50 AC) tem vários manuscritos, mas somente 9 ou 10 são bons e o mais antigo data 900 anos depois dos dias de César. Dos 142 livros da História Romana de Lívio (59 AC – 17 AD), apenas 35 sobreviveram; estes são conhecidos a nós por intermédio de 20 manuscritos, somente um deles, e este contendo apenas fragmentos dos livros III-VI, data do quarto século. Dos 14 livros da História de Tácito (100 AD), apenas quatro e meio sobreviveram; dos 16 livros de seus Anais, dez sobreviveram completos e dois em parte. O texto destas porções destes dois trabalhos históricos importantes de Tácito dependem inteiramente de dois manuscritos, um do Século 9 e outro do Século 11. A História de Tucídides (460-400 AC) é conhecido a nós através de 8 manuscritos, o primeiro datando do início da Era Cristã. O mesmo é verdade da História de Heródoto (480-425 AC). Entretanto nenhum acadêmico clássico daria ouvidos a um argumento que colocasse a autenticidade de Heródoto ou Tucídides em dúvida pelo fato de seus manuscritos mais antigos serem datados 1,300 anos depois dos originais.

[Quanto mais os manuscritos do NT. Perante uma tão grande nuvem de testemunhas, seria suicídio intelectual nos levantar contra elas.]

Canonicidade Bíblica (1/3): Antigo Testamento

Autoria: J. Hampton Keathley, III , Th.M. (www.bible.org)
STAFF, A. P. The Canon and Extra-Canonical Writings.
(Copyright © 2003 Apologetics Press, Inc.)

Tradução, Conflação e Adaptação: J.S. Cavani


Introdução

O fato da inspiração da Bíblia ser concebida como a revelação especial de Deus ao homem, naturalmente leva-nos a questionar quais livros são canônicos, isto é, quais livros são inspirados e devem ser reconhecidos como parte da revelação autoritária de Deus? É o nosso Antigo Testamento o mesmo que Jesus lia? É o nosso Novo Testamento idêntico ao dos pais da igreja? Estas são questões vitais para o povo de Deus determinar.

A palavra cânon vem do grego kanon e literalmente quer dizer: vara, régua de medida ou regra ou padrão para medir a retidão de algo. Historicamente, a palavra foi primeiramente usada pela igreja para distinguir as doutrinas que eram aceitas como regras de fé ou prática. O termo mais tarde veio a ser aplicado as decisões dos concílios como regras pelas quais o cristão deveria viver.

Com o passar do tempo, os termos cânon e canônico vieram a ser aplicados ao catálogo ou lista de livros sagrados distintos e honrados como a Palavra inspirada de Deus. “Os cristãos gregos do quarto século tinham dado a palavra um significado religioso semi-técnico, aplicando-a a Bíblia, especialmente aos livros Judaicos.”[1]

É importante notar que os concílios religiosos em nenhum tempo tiveram o poder para fazer dos livros inspirados, antes eles simplesmente reconheceram aqueles os quais Deus tinha inspirado no exato momento em que foram escritos.

Judeus e Cristãos conservadores têm reconhecido os 39 livros do Antigo Testamento como inspirados. Protestantes e Católicos reconhecem os 27 livros do Novo Testamento como inspirados. Os Católicos Romanos possuem mais livros pois eles reconhecem os Apócrifos como semi-canônicos.[2]

[O primeiro Concílio Canônico a ratificar estes livros foi o Concílio de Trento em 1546, 29 anos depois de Lutero ter pregado as 95 teses na porta da Igreja de Wittenberg. A aceitação destes livros foi conveniente pois estes livros poderiam ser citados contra Lutero. Por exemplo, 2 Macabeus fala de oração aos mortos (12:45-46) e outro livro ensina salvação pelas obras (Tobias 12:19)]

Evidência Filosofica da Canonicidade Bíblica

Que Deus proveria e preservaria o Cânon da Escritura sem adição ou subtração não é apenas necessário, mas logicamente acreditável. Se nós cremos que Deus é Todo-Poderoso, então revelação e inspiração são claramente possíveis. Se nós cremos em tal Deus, é também provável que Ele, por amor e por desígnio, revelaria a Si mesmo ao homem. Por causa da condição de queda do homem e sua incapacidade de obter suas necessidades espirituais (mesmo com todo seu entendimento e avanço tecnológico), revelação especial dada por Deus através de um livro inspirado não só é possível, lógico e provável, mas também necessário.

A evidência mostra que a Bíblia é única e que Deus é seu autor. A evidência declara que “toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa...” (2 Tm 3:16) e que “nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação, porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pe 1:20-21). De acordo com esta perspectiva “não seria irracional se Deus falhasse em providencialmente cuidar destes documentos inspirados, preservando-os da destruição e guiando-os em seu arranjo e coleção para que eles estivessem presentes, em nada faltando e em nada sendo adicionado que não fosse inspirado?”[3]

Considerações Importantes

Há considerações importantes que devem ser mantidas em mente ao considerar o assunto da canonicidade ou como os livros da Bíblia vieram a ser reconhecidos como parte da Palavra de Deus. O teólogo Ryrie resume estes tópicos em:

1. Auto-Autentificação: É essencial lembrar que a Bíblia autentifica a si mesma, pois os livros foram inspirados por Deus (2 Tm 3:16). Em outras palavras, estes livros eram canônicos no momento em que foram escritos. Não foi necessário esperar até que os vários concílios pudessem examinar os livros e determinar se eram aceitáveis ou não. Sua canonicidade estava inerente neles, pois vieram de Deus. Pessoas e concílios apenas reconhecem o que é verdadeiro por causa de sua inspiração intrínsica. Nenhum livro da Bíblia foi feito canônico pela ação de um concílio eclesiástico ou judaico.

2. Decisões dos homens: Entretanto, homens e concílios tiveram que considerar quais livros deveriam ser reconhecidos como parte do cânon, pois havia candidatos que não eram inspirados. Algumas decisões tiveram que ser feitas, e Deus guiou grupos de pessoas a fazer as decisões corretas e a coletar as várias escrituras no cânon do Antigo e Novo Testamento.

3. Debate sobre a canonicidade: No processo de decidir e coletar, era inevitável que debates surgissem sobre os livros. Entretanto, estes debates não enfraqueciam de nenhuma maneira a autencidade dos livros verdadeiramente canônicos, nem tampouco deram eles status aqueles livros que não eram canônicos.

4. Encerramento do Cânon: Desde 397 AD, a comunidade Cristã tem dado o cânon bíblico por completo, e se estava completo, deveria ser encerrado. Assim, não podemos mais esperar que outros livros venham a ser escritos ou descobertos que possam ser adicionados ao cânon bíblico. Até mesmo se uma carta de Paulo for descoberta, ela não seria canônica. Pois Paulo certamente deveria ter escrito muitas cartas em seu ministério em adição aquelas que estão no Novo Testamento. Mesmo assim, a igreja não as incluiu no cânon. Nem tudo o que um apóstolo escrevia era inspirado, pois não era o escritor que era inspirado, mas sim seus escritos, e não necessariamente todos eles.

Canonicidade do Antigo Testamento

A Bíblia Hebraica de hoje é substancialmente a mesma que as Escrituras originais, com apenas mudanças físicas como a adição de vogais, guia para a leitura nas margens e a mudança para um estilo de caracteres hebraicos mais aberto. Em Romanos 3:2, nos é dito que os “oráculos de Deus,” isto é, o Antigo Testamento, tinha sido confiado aos Judeus. Eram eles os mordomos do Antigo Testamento. Isto se encaixa perfeitamente naquilo que conhecemos a respeito dos Judeus. Eles sempre foram o povo de um só livro, o qual foi por eles guardado com o mais meticuloso e extremo cuidado. Desde o tempo de Esdras e até mesmo antes, havia sacerdotes (Deut. 31:24-26) e mais tarde escribas chamados sopherim, os quais tinham sido dado a responsabilidade de copiar meticulosamente o texto sagrado, para que eles pudessem transmitir a escrita correta.

Para assegurar esta precisão, os escribas posteriores conhecidos como Massoretas desenvolveram um número de medidas estritas para assegurar que cada cópia nova fosse uma reprodução exata do original. Eles estabeleceram procedimentos tediosos para proteger o texto de ser mudado. Por exemplo, quando erros óbvios eram percebidos no texto, talvez por causa da mão cansada de um escriba, o texto não era mudado. Uma correção era colocada na margem chamada gere, “para ser lido,” e aquilo que estava escrito no texto era chamado kethibh, “para ser escrito.” Até mesmo quando uma palavra era considerada textualmente, gramaticamente ou exegeticamente questionável, pontos eram colocados em cima da palavra. Outro fato relevante é que minúcias estatísticas eram mantidas como meio de guardar o texto contra erros: na Bíblia Hebraica em Levíticos 8:8, a margem trazia uma referência dizendo que este era o versículo que estava no meio do Torah. De acordo com uma nota em Lev. 10:16, a palavra darash é a palavra do meio do Torah e em Lev 11:42, eles asseguram que o waw na palavra hebraica era a letra do meio do Torah! No final de cada livro tinha estatísticas como: número total de versículos em Deuteronômio é 955, o número total no Torah é 5,845; o número total de palavras é 97,856, e o número total de letras é 400,945.[4]

Nisto nós vemos os procedimentos dolorosos que os Judeus estabeleceram para assegurar uma transmissão precisa do texto. Embora seus olhos possam estar encobertos para a verdade da Bíblia (Is 6:10; Jo 12:40; Rm 10 10:1-3; 11:7), eles guardaram sua transmissão com grande precisão.

As cópias originais do AT foram escritas em couro ou papiro, do tempo de Moisés (1450 AC) até o tempo de Malaquias (400 AC). Até a descoberta sensacional dos Rolos do Mar Morto em 1947, as cópias mais antigas do AT que nós tinhamos eram de 895 AD. A razão para isto é que os Judeus tinham uma veneração quase supersticiosa pelo texto, o qual impedia que eles enterrassem cópias que tinham se tornado velhas demais para o uso. Os Massoretas que entre 600-950 AD adicionaram acentos e vogais para padronizar o texto, desenvolveram técnicas complicadas ao fazer as cópias. Quando os Rolos do Mar Morto foram descobertos, eles nos deram um texto hebraico do segundo século AC. De todos os livros do AT, somente o livro de Ester não estava entre os rolos descobertos. Esta descoberta foi muito importante, pois providenciou uma maneira de checar a precisão do texto massorético com escritos mais antigos. O texto massorético provou ser extremamente preciso. Outras formas de conferimento com textos antigos incluem a tradução da Septuaginta (metade do terceiro século AC), os Targuns aramaicos (parafrases e citações do AT), citações dos escritores cristãos antigos, e a tradução latina de Jerônimo (400 AD) que foi feita diretamente do texto hebraico do seu dia.[5]

Divisão Tríplice

O texto massorético do AT contém 24 livros, começando com Gênesis e terminando com 2 Crônicas.

[O conteúdo é o mesmo das Bíblias atuais que têm 39 livros para o AT. A diferença é que a ordem e o arranjo é diferente, Crônicas, Reis, Samuel, Esdras-Neemias eram um livro cada, os 12 profetas menores estavam também agrupado em um só livro.]

No entanto, desde 1517, as Bíblias Hebraicas começaram a dividir os livros do AT em 39 livros, mas mantiveram a divisão tríplice, incluindo o arranjo dos livros, começando com Gênesis e terminando com 2 Crônicas como na Bíblia Antiga. Isto é bastante interessante, pois em Mateus 23:35, Jesus havia mencionado sobre o sangue dos justos que havia sido derramado desde Abel até Zacarias, filho de Baraquias/Joiada (2 Cr 24:20-22). A morte de Abel está registrada em Gênesis, e 2 Crônicas era o último livro da Bíblia Antiga. Em essência, Cristo estava dizendo “do primeiro ao último assassinato da Bíblia.” Isto demonstra que Ele considerava o AT como canônico. A divisão da Bíblia Hebraica pode ser vista logo abaixo:

(1) Lei (5 livros) – Gênesis, Êxodo, Levíticos, Números, Deuteronômio.
(2) Profetas (originalmente 8, agora 21 livros) –
• Profetas Anteriores (originalmente 4, agora 6 livros) – Josué, Juízes, Samuel (1&2), Reis (1&2).
• Profetas Posteriores (originalmente 4, agora 15 livros) – Maiores: Isaías, Jeremias, Ezequiel (3 livros) – Menores: Os 12 (originalmente 1, agora 12 livros)
(3) Os Escritos (originalmente 11, agora 13 livros)
• Poéticos (3 livros): Salmos, Provérbios e Jó
• Os Rolos (5 livros): Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester.
• Históricos (originalmente 3, agora 5 livros) – Daniel, Esdras-Neemias (2), Crônicas (1&2)

Já nos tempos do NT, esta divisão tríplice era reconhecida (Lucas 24:44). Outras designações como “As Escrituras” (Jo 10:35) ou “Sagradas Escrituras” (2 Tm 3:15) sugerem um cânon já bem definido nos dias de Cristo. Esta divisão tríplice é também atestada por Joséfo (37-95 AD), o qual menciona 22 livros (agrupando Juízes-Rute, Jeremias-Lamentações) na tentativa de harmonizar o número de livros com o número de letras no alfabeto hebraico. Melito de Sardis (170 AD), Tertuliano (160-250), assim como outros atestam esta divisão.

O concílio de Jamnia em 90 AD é geralmente considerado a ocasião em que o cânon do AT foi publicamente reconhecido (quando debatiam a canonicidade de outros livros).

Evidência Histórica da Canonicidade do Antigo Testamento

Há um número de importantes evidências históricas tiradas dos escritos antigos que apoiam a canonicidade do AT:

1. Prólogo de Eclesiástico: Este livro não canônico refere-se a tríplice divisão dos livros (Lei, Profetas, e hinos e preceitos para a conduta humana) que eram conhecidos pelo avô do escritor (cerca de 200 AC).
2. Filo (40 AD) refere-se a mesma divisão tríplice.
3. Joséfo (37-100 AD) disse que os Judeus tinham 22 livros sagrados [ver explicação acima]
4. Jamnia (90 AD) era um concílio de rabis que discutiam a canonicidade. Alguns questionaram se era certo aceitar (como já estava sendo feito) Ester, Eclesiastes e Cantares de Salomão. Estas discussões já diziam a respeito de um cânon pré-existente.
5. Pais da Igreja: Aceitaram os 39 livros do AT. A única excessão foi Agostinho (400 AD) que incluiu a apócrifa (livros do período inter-testamentário). Entretanto, ele reconhecia que eles não eram completamente autoritários. Os livros da apócrifa foram reconhecidos só pelo Concílio de Trento (1546 AD) pela igreja Católica no movimento de Contra-Reforma.[6]
6. NT: Há 250 citações do AT no NT. Nenhuma destas citações é dos apócrifos. Todos livros são citados, exceto Ester, Eclesiastes e Cantares de Salomão. Em Mt 5:17-18, Jesus menciona a Lei e os Profetas, uma referência que incluia todo o AT. Como mencionado antes, em Mt 23:35 ao mencionar a derramação de sangue desde Abel (Gêneis) até Zacarias (2 Crônicas), Jesus estava aludindo a divisão tríplice do AT. Isto é significante, pois havia muitos justos que foram mortos no período inter-testamentário como os Macabeus, assim escrito nos livros apócrifos, mas Jesus não os mencionou, excluindo-os do cânon do AT.

A.P. Staff adiciona outras evidências que confirmam o cânon do AT em seu artigo The Canon and Extra-Canonical Writings:

Contra Apion. Um tratado escrito por Joséfo onde ele diz (1:38-42): “é verdade, nossa história tem sido escrita muito particularmente desde Artaxerxes, mas não com a mesma estimada autoridade de nossos pais, pois não houve mais sucessão de profetas desde aquele tempo; e o quão firmemente nós temos dado crédito aqueles livros de nossa nação é evidente pelo que fazemos; pois muitas épocas tem passado, mas ninguém tem sido tão ousado para adicionar alguma coisa a elas, ou tirar alguma coisa delas, ou fazer qualquer mudança nelas; isto vem naturalmente a todos os Judeus, imdiatamente e logo após o nascimento deles, estimar aqueles livros que contém doutrinas divinas e persistir nelas e se necessário for, voluntariamente morrer por elas.”

Joséfo considerava tudo escrito depois de Artaxerxes como não-canônico, porque as profecias tinham cessado. É altamente provável que estas idéias não eram suas, pois ele era um historiador, mas antes tais idéias refletian uma tradição judaica mais antiga. Adicionando a isto, o Talmude, o qual era uma coleção da lei oral dos hebreus (Mishna) e das discussões eruditas assim como também comentários (Gemara) também listava os livros do AT nesta mesma divisão tríplice com o mesmo conteúdo (Baba Bathra). A evidência mais interessante a respeito do cânon hebraico vem de do tratado Sanhedrin: “os rabis ensinaram: desde a morte dos últimos profetas, Ageu, Zacarias e Malaquias, o Espírito de Deus abandonou Israel...”[7]

Assim a tradição judaica assegurava que Malaquias foi o último livro inspirado do AT. De acordo com o tratado Sanhedrin, Moisés escreveu Jó e o Torah. Samuel escreveu o livro que tem seu nome, assim como também Juízes e Rute. 1 Samuel 25:1 que registra a morte de Samuel, foi escrito por Gade, o vidente, e Natã, o profeta, terminou 1 Samuel e escreveu 2 Samuel. Jeremias em adição ao seu livro, escreveu Reis e Lamentações, o Rei Ezequias e sua compania (de acordo com o Talmude) escreveram Isaías, Provérbios, Cantares de Salomão e Eclesiastes. Os homens da Grande Assembléia (um grupo de líderes religiosos pós-exílicos liderados por Esdras) copiaram Ezequiel, os Doze, Daniel e Ester. Esdras escreveu Esdras e Crônicas (cf 2 Cr 36:22-23 e Esdras 1:1-4) e Neemias adicionou ao livro de Esdras com seus escritos (Rodkinson, 1918, V:45-46). Embora alguns atribuem a autoria de Neemias à Esdras.

Conclusão, o cânon do AT é este: certas porções das Escrituras Hebraicas foram canonizadas na morte de seus autores (Gênesis até Josué), enquanto outros homens adicionaram o resto ou coletaram o resto sob a direção de Deus. Os Judeus consideravam Malaquias como o último Profeta e seus 24 livros (39 hoje) apoiam esta visão. Os escritores do NT, Joséfo, os rabis de Jamnia, a tradição Talmúdica apoiam também este cânon finalizado. Se é certo que a Igreja adicione mais livros ao cânon do AT (i.e. apócrifa) será discutido na terceira parte deste estudo.

Autoria do AT (Tradição do Talmude)

1. Moisés - Pentateuco, Jó, e Salmo 90
2. Josué - Josué 1-24:28 e Deuteronômio 34
3. Eleazar - Josué 24:29-32
4. Finéias - Josué 24:33
5. Samuel - 1 Samuel 1-24, Juízes, e Rute
6. Gade e Natã - 1 Samuel 25-31 e 2 Samuel
7. Davi, et al. - Salmos
8. Jeremias - Jeremias, 1 e 2 Reis, e Lamentações
9. Ezequias, et al. - Isaías, Provérbios, Cantares de Salomão, e Eclesiastes
10. A Grande Assembléia - Ezequiel, Os Doze Profetas, Daniel, e Ester
11. Esdras - Esdras e 1 e 2 Crônicas
12. Neemias - Neemias


Referências Bibliográficas

[1] Merrill F. Unger. Introductory Guide to the Old Testament. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1951. p. 47.
[2] Paul Enns. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody Press, 1989. p. 170.
[3] Josh McDowell. Evidence Demands a Verdict, Historical Evidences for the Christian Faith. Revised Edition. San Bernardino, CA: Here’s Life Publishers, 1979.
[4] Frederick W. Danker. Multipurpose Tools For Bible Study. St Louis: Concorida Publishing House, 1960. p. 57.
[5] Charles Caldwell Ryrie. A Survey of Bible Doctrine. Chicago: Moody Press, 1972. pp. 45-46.
[6] Charles C. Ryrie. Basic Theology. Wheaton, IL: Victor Books, 1987. Electronic media.
[7] Michael L Rodkinson. (1918), New Edition of the Babylonian Talmud, ed. J.B. Hare (Boston: The Talmud Society), [On-line], URL: http://www.sacred-texts.com/jud/talmud.htm. VII/VIII: 24.

Friday, April 24, 2009

Da Vinci e o Evangelho de Judas

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