Wednesday, July 14, 2010

Deixando o Brasil (novamente)

Os meus planos de responder aquele video amador e pseudo-histórico chamado Zeitgeist, acabaram sendo interrompidos pela oportunidade que me apareceu de ir para a China, para a cidade de Wuhan mais precisamente, e trabalhar em uma escola internacional, ensinando Ciências Sociais (Política, Economia e História). Não tenho certeza se é possível acessar o blogspot na China devido ao "The Great Firewall" - o controle de informação na internet do Governo Chinês.

É a segunda vez que deixo o país, a primeira eu fui para os EUA, para o estado mais liberal dos EUA. Agora estou indo para um país cuja história e cultura sempre me cativou. Pelo menos não há MST na China e nem Lula (embora ele apareça de vez em quando lá).

Estou honrado em trilhar o mesmo caminho que Hudson Taylor.

Um abraço para todos!

Em Defesa da Fé: A Verdade Sobre a WRC [e-book]


Há uns 4 anos atrás, quando eu ainda morava nos EUA, mais precisamente na Grande Boston, eu havia publicado um pequeno livro combatendo ensinos distorcidos e doutrinas estranhas (muito estranhas) de uma influente congregação evangélica (da qual eu tinha feito parte por 3-4 anos) que havia se desligado da Convenção Geral das Assembléias de Deus (tanto da Brasileira quanto da Americana) e adotado um novo nome: World Revival Church. Os acontecimentos e as doutrinas estranhas daquela congregação foram mencionados até por J. Lee Grady, o editor da Revista Charisma, uma das mais famosas revistas pentecostais dos EUA. Grady menciona num artigo entitulado Angels, Deception and a Cry for Biblical Truth (Agosto, 2008) que:

"At a growing Brazilian church in Boston, a pastor told his congregation he was having regular conversations with an angel. Weeks later he set a chair on the stage for the heavenly visitor, whom he said was attending Sunday services even though no one could see him. The pastor eventually wrote a book containing messages he had supposedly received from the angel. The man’s teachings became so bizarre that he was eventually removed from his denomination for promoting heresy."

"Numa igreja brasileira grande em Boston, um pastor declarou para sua congregação que ele estava tendo conversas regulares com um anjo. Semanas mais tarde ele colocou uma cadeira na plataforma para o visitante celestial, a quem ele disse estava freqüentando os cultos de domingo, muito embora ninguém conseguisse vê-lo. O pastor acabou escrevendo um livro contendo mensagens que ele supostamente recebeu do anjo. Os ensinamentos desse homem se tornaram tão bizarros que ele acabou sendo expulso de sua denominação por promover heresia.
" (Trecho da tradução feita por Julio Severo. Para ver o texto traduzido na íntegra, clique aqui.)

Bom, tendo sido testemunha ocular dos eventos que ali aconteceram, mas que agora já fazem tanto tempo em minha mente, eu havia escrito uma pequena obra misturando um pouco de minha biografia com a refutação do livro que esta igreja havia publicado.

Quando eu publiquei o livro, o meu comando da língua portuguesa era sofrível (e ainda continua sendo) e não tendo ninguém que pudesse me ajudar na correção dos erros gramáticos, eu mesmo tive que fazer as correções (olha só que desastre!); talvez eu realmente deveria ter vergonha por ter apresentado o material em tal forma. Mas a necessidade, na época, de combater tais ensinos era tão urgente que os erros de português ficaram para segundo plano.

Quatro anos se passaram, e a vida que eu vivi nos EUA ficou tão distante que eu nunca mais toquei neste assunto. Mas agora, eu decidi compartilhar com os leitores deste blog (será que há algum?) esta obra, que foi a minha primeira e nenhum escritor (profissional ou amador) esquece sua primeira obra.

Nenhuma mudança foi feita no livro, a preguiça não deixou, ele continua com os mesmos erros gramaticais, com a mesma indignação bíblica, com as mesmas expressões carregadas de ardor (ou até furor) contra toda falsidade doutrinária. Confesso que eu havia escrito duramente, mas não me arrependo do conteúdo daquilo que escrevi, pois como já dizia Martinho Lutero, não é seguro nem correto ir contra a própria consciência.

O interior do livro (isto é, tudo menos a capa) pode ser lido e baixado no scribd aqui.

Thursday, March 11, 2010

Caindo Sem Parar

Olavo de Carvalho

Em editorial do dia 25 último, a Folha de S. Paulo faz as mais prodigiosas acrobacias estatísticas para induzir o leitor a acreditar que a queda do Brasil do 76º para 88º lugar em educação básica, na escala da Unesco, representa um progresso formidável. Não vou nem entrar na discussão. Entre a Unesco, o Ministério da Educação e o jornal do sr. Frias, não sei em quem confio menos. Mas confio nos testes internacionais em que os nossos alunos do curso médio tiram invariavelmente os últimos lugares entre concorrentes de três dezenas de países. Numa dessas ocasiões o então ministro da Educação buscou até consolar-se mediante a alegação sublime de que “poderia ter sido pior”. Claro: se ele próprio fizesse o teste, a banca teria de criar ad hoc um lugar abaixo do último. Seríamos hors concours no sentido descendente do termo.

Confio também na proporção matemática entre o número de profissionais da ciência em cada país e o de seus trabalhos científicos citados em outros trabalhos, tal como aparece no banco de dados da Scimago. Aí vê-se que, em número de citações — medida da sua importância para a ciência mundial —, os cientistas brasileiros vêm caindo de posto com a mesma velocidade com que, forçada pelo CNPq e pela Capes, aumenta de ano para ano a sua produção de trabalhos escritos. Ou seja: quanto mais escrevem, menos utilidade o que escrevem tem para o progresso da ciência.

Em medicina, passamos do 24º lugar, em 1997, para o 36º em 2008. Em bioquímica e genética, no mesmo período, do 19º para o 36º. Em biologia e agricultura, do 18º para o 32º. Em física e astronomia, do 18º para o 29º. Em matemática, do 13º para o 28º. Não houve um só setor em que nossos cientistas não escrevessem cada vez mais coisas com cada vez menos conteúdo aproveitável para os outros cientistas. Em doses crescentes, o que se entende por ciência no Brasil vai se tornando puro fingimento burocrático, pago com dinheiro público.

Para o professor Hermes, a coisa começou em 2003, mas piorou muito entre 2005 e 2008. Mas de 1999 a 2009 “houve aumento de 133% no número de artigos científicos publicados em revistas especializadas. O investimento do Ministério da Ciência e Tecnologia neste setor duplicou de 2000 a 2007. O investimento privado também aumentou nesse período”. Obviamente, não está faltando dinheiro.

É o CNPq, a Capes e o governo em geral admitirem que há uma diferença substantiva entre fazer ciência e mostrar serviço para impressionar o eleitorado.

Se essa diferença parece obscura ou inexistente para os atuais senhores das verbas científicas no Brasil (e para a mídia que os bajula), fenômeno similar ocorre na educação primária e média, onde o governo dá cada vez menos educação a um número cada vez maior de alunos, democratizando a ignorância como jamais se viu neste mundo.

Coisa parecida também não acontece no ramo editorial, onde a produção crescente de livros para o público de nível universitário acompanha pari passu o decréscimo de QI dos autores que os escrevem? Confio, quanto a esse ponto, na minha memória de leitor.

Entre as décadas de 50 e 70 ainda tínhamos, vivos e em plena efusão criativa, alguns dos mais notáveis escritores e pensadores do mundo: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meirelles, José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Herberto Sales, Josué Montello, Antonio Olinto, João Guimarães Rosa, Jorge Andrade, Nélson Rodrigues, Vicente Ferreira da Silva, Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, José Honório Rodrigues, Gilberto Freyre, José Guilherme Merquior — além dos importados Otto Maria Carpeaux, Vilém Flusser, Anatol Rosenfeld e tutti quanti. Que me perdoem as omissões, muitas e volumosas.

O Brasil era um país luminoso, capaz, consciente de si, empenhado em compreender-se e compreender o mundo. Agora temos o quê? Fora os sobreviventes nonagenários e centenários, dos quais não se pode exigir que repitam as glórias do passado, é tudo uma miséria só, a obscuridade turva do pensamento, a paralisia covarde da imaginação e a impotência da linguagem.

“Cultura”, hoje, é rap, funk e camisinhas; “educação” é treinar as crianças para shows de drag queens ou para a invasão de fazendas; “pensamento” é xingar os EUA no Fórum Social Mundial, e “debate nacional” é a mídia competindo com a máquina estatal de propaganda, para ver quem pinta a imagem mais linda do sr. presidente da República. Nesse ambiente, em que poderia consistir a “ciência” senão em imprimir cada vez mais irrelevâncias subsidiadas?

Será possível que todas essas quedas, paralelas no tempo e iguais em velocidade, tenham sido fenômenos autônomos, separados, casuais, sem conexão uns com os outros? Ou compõem solidariamente, como efeitos de um mesmo processo causal geral, o quadro unitário da autodestruição da inteligência nacional?

E será mera coincidência que toda essa corrupção mental sem paralelo no mundo tenha sobrevindo ao Brasil justamente nas décadas em que a intromissão do governo na educação e na cultura cresceu até ao ponto de poder, hoje, assumir abertamente suas intenções dirigistas e controladoras sem que isso cause escândalo e revolta proporcionais ao tamanho do mal?

A resposta às duas perguntas é não, obviamente não. A História não se compõe de curiosas coincidências. A débâcle da vida intelectual no Brasil é um processo geral, unitário, coerente e contínuo há várias décadas, e o fator que unifica as suas manifestações nos diversos campos chama-se intromissão estatal, governo invasivo, controle oficial e transformação da cultura e da educação em instrumentos de propaganda, manipulação e corrupção.

A cultura, a arte, a educação e a ciência no Brasil só se levantarão do presente estado de abjeção quando a máquina governamental que as domina for destruída, quando toda presunção de autoridade dos políticos nessas áreas for abertamente condenada como um tipo de estelionato.

A Segunda Conferência Nacional de Cultura e o Plano Nacional de Direitos Humanos não passam de conspirações criminosas destinadas a agravar esses males, que já deveriam ter sido extirpados há muito tempo.


Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia

Fonte: Diário do Comércio
Divulgação: www.juliosevero.com

Monday, January 18, 2010

Falando Sobre Bicicletas [ou: As Quatro Idades da Vida]

C.S. Lewis
(Originalmente publicado em Outubro de 1946)


‘Falando sobre bicicletas,’ disse meu amigo, ‘eu já passei pelas quatro idades. Eu lembro de um tempo em minha infância quando uma bicicleta não significava nada para mim. Ela era simplesmente parte do pano de fundo sem sentido das bugigangas dos adultos. Então chegou um momento que ter uma bicleta e aprender a dirigi-la e finalmente estar pedalando sozinho, cedo pela manhã debaixo das árvores na sombra era como estar entrando no paraíso. Aquele deslizamento, semelhante a natação era como se fosse a descoberta do quinto elemento – parecia ter até resolvido os mistérios da vida. Agora eu estava feliz. Mas é claro, brevemente eu cheguei na terceira idade. Pedalando para a escola e da escola, subindo e descendo morro em toda sorte de tempo, acabou revelando a realidade deste ciclo. A bicicleta para mim tornou-se tediosa, semelhante ao que o remo era para o escravo remador.’
‘Mas qual era a quarta idade?’
‘Eu estou nela agora, ou melhor, eu estou frequentemente nela. Eu comecei a andar de bicicleta de novo, agora que não tenho carro. E os trabalhos que eu faço usando a bicicleta são bem chatos. Mas o fato de estar andando de bicicleta novamente trás de volta uma suave brisa de memória. Eu recuperei o sentimento da segunda idade. O que é mais, eu agora vejo o quão verdadeiro eles eram, o quão filosófico até. Porque é realmente uma sensação agradável. Certamente não é uma receita da felicidade, como antes então eu pensava. Neste sentido, a segunda idade era uma miragem, mas a miragem de algo.’
‘O que você quer dizer?’ Eu disse.
‘Eu quero dizer isto, se há ou não neste mundo ou em outro, o tipo de felicidade que a primeira experiência em cima de uma bicicleta parecia prometer... o valor da coisa prometida permanece mesmo se aquela promessa em particular era falsa – mesmo se todas promessas são falsas.’
‘Parece uma cenoura pendurada na frente do focinho do burro,’ disse eu.
‘Mesmo isto não seria uma trapaça se o burro sentisse o prazer do cheiro da cenoura tão bem quanto ou até mais que o próprio gosto. Ou suponhamos que o cheiro depertasse no burro emoções que nenhum ato de comer pudesse satisfazer? Não olharia ele para trás (sendo ele agora um burro velho na quarta idade da vida) e diria: Estou contente pelo fato de ter tido uma cenoura pendurada na frente do meu nariz. De outra forma eu ainda acharia que comer era a maior felicidade do mundo. Agora sei que há algo muito melhor – algo que veio a mim através daquele cheiro. E eu preferiria tê-lo conhecido mesmo se eu nunca fosse possuí-lo do que não tê-lo conhecido, pois o simples ato de almejá-lo torna a vida útil.’
‘Eu não creio que um burro sentiria desta maneira.’
‘Não, nem um burro de quatro pernas, nem um de duas pernas, mas suspeito que sentir-se desta maneira é a marca verdadeira de um humano.’
‘Então ninguém era humano até inventarem as bicicletas?’
‘A bicicleta é apenas uma instância. Eu creio que existem estas quatro idades para tudo na vida. Elas são a idade do Não-Encantamento, a idade do Encantamento, a idade do Desencantamento e a idade do Reencantamento. Quando eu era criança eu não estava encantado com as bicicletas. Quando aprendi a andar, eu estava encantado. Aos 16 já estava desencantado e agora estou reencantado.’
‘Continue,’ disse eu, ‘quais são as outras aplicações?’
‘Eu creio que a mais óbvia é o amor. Nós todos se lembramos da idade do Não Encantamento – havia um tempo que as mulheres não significavam nada para nós. Então nós nos apaixonamos, isto era, é claro, o Encantamento. Depois de anos no casamento veio o Desencantamento. Todas as promessas acabaram revelando-se falsas. Nenhuma mulher poderia atingir as expectativas, a coisa era impossível, com todo respeito a sua mulher e a minha, mas-’
‘Nunca fui casado,’ o relembrei
‘Oh, que pena, pois neste caso você não pode entender esta forma peculiar de reencantamento. Eu não creio que eu conseguiria explicar para um solteiro de como chega um tempo em que você olha para aquela primeira miragem, perfeitamente ciente de que era uma miragem, e mesmo assim, vendo tudo o que ela produziu, coisas que garotos ou garotas não poderiam nem sonhar, e sentimentos... que nos trazem de volta a realidade, mas mesmo debaixo de todas estas experiências, o ideal desta imagem permanece como uma concha repousando no fundo de um lago claro e profundo – de tal forma que até mesmo onde este ideal era menos verdadeiro, ele estava te dizendo verdades importantes na única forma em que você as entenderia, mas acho que estou te incomodando.’
‘De nenhuma maneira,’ disse eu.
‘Vamos tomar um exemplo que te interesse mais. Que tal a guerra? A maioria de nós foi criado no período do Desencantamento. O homem Desencantado vê (e vê certamente) crueldade e desperdício e nada mais. O homem Encantado está num estado de mente semelhante a Rupert Brooke ou Philip Sidney – ele está pensando em glória, poesias sobre batalhas, esperanças, cavalheirismo e resistência heróica. Então vêm a fase do Desencantamento, diga-se Siegfried Sassoon. Mas há uma quarta fase, embora poucas pessoas na Inglaterra Moderna ousam falar sobre isto. Você sabe bem o que quero dizer. Você não está iludido, nós nos lembramos das trincheiras muito bem. Nós conhecemos o quanto da realidade que a visão romântica deixou de fora. Mas nós também sabemos que heroísmo é uma coisa real, que todas as bandeiras, fardas e trombetas da tradição não estavam lá por nada. Eles estavam tentando honrar algo que é realmente honrável: o que foi primeiramente reconhecido como honrável precisamente porque todos sabiam o quão terrível era a guerra. E por isto que este negócio da quarta idade é tão impotante.’
‘O que você quer dizer?’
‘É imensamente impotante distinguir entre Não Encantamento e Desencantamento, e Encantamento de Reencantamento. Nos poetas por exemplo, a canção de guerra de Homero ou A Batalha de Maldon, por exemplo, é Reencantamento. Você vê em cada linha que o poeta sabe tão bem quanto qualquer poeta moderno, as coisas horríveis que ele está escrevendo. Ele celebra o heroísmo, mas ele pagou um alto preço por fazê-lo. Ele vê o horror, mas também a glória. Agora em Lays of Ancient Rome ou Lepanto, o poeta ainda está encantado. Os poetas provavelmente não tem nenhuma idéia do que é a guerra.[1] O mesmo acontece com Não Encantamento e Desencantamento. Você lê em um autor onde o amor é tratado como luxúria e toda guerra como assassinato e assim por diante. Mas, será que você está lendo um homem Não Encantado ou Desencantado? O escritor já passou pelo encantamento ou é ele apenas um escritor Não Encantado? O escritor já passou pelo encantamento e saiu pelos terrenos cinzentos, ou é ele simplesmente um subhomem que está livre da miragem do amor assim como um cão está livre, e livre da miragem heróica assim como um covarde está livre? Se Desencantado, ele talvez tenha algo a dizer que vale a pena escutar. Se Não Encantado, jogue seu livro no fogo. Ele fala sobre o que não entende. Mas o grande perigo que temos que evitar nesta era é que o homem Não Encantado acredite que ele é Desencantado, e que ele seja também confundido pelos outros como Desencantado. O que você ia dizer?’
‘Eu estava pensando se o Encantamento que você fala... não seja nada mais do que uma ilusão da memória. Nós por acaso não lembramos experiências bem melhores do que as que a gente realmente teve?’
‘Sim, num certo sentido. A memória é em si o supremo exemplo das quatro idades. Woodsworth, era Encantado. Ele tinha bons fachos de memórias de sua juventude e as tomou ao pé da letra. Ele acreditava que se ele pudesse ter de volta certos lugares de seu passado, ele encontraria ali um momento de alegria esperando por ele. Você está desencantado. Você começa a suspeitar que aqueles momentos... não eram tão maravilhosos quanto eles pareciam. Você está certo, eles não eram. Cada grande experiência é um sussurro que a Memória armazenará como um grito.[2] Mas e daí? Não é o fato de armazenar importante porque um tipo peculiar de luz polarizada entre o passado e o presente é o mecanismo que o traz em foco?...Se você não tomar mais nenhuma cerveja, é melhor irmos, porque aquele homem no outro lado do bar acha que nós estamos falando sobre política.’
‘Não tenho certeza se não estamos,’ disse eu.
‘Você está certo. Você crê que aristocracia é um outro exemplo? Era simplesmente um mero Encantamento crer que seres humanos, confiados com poderes incontrolados sobre seus próximos, não o usariam a favor da exploração; ou até mesmo supor que seus próprios padrões de honra, valor e elegância... não se degenerariam numa vulgaridade. Assim, corretamente e inevitavelmente veio o Desencantamento, a Idade das Revoluções. Mas a questão que permanece é se nós podemos entrar num Reencantamento.’
‘E o que seria o reencantamento?’
‘A realização que a coisa a qual a Aristocracia era uma miragem é uma necessidade vital, se você preferir, que a Aristocracia estava certa; eram os aristocratas que estavam errados. Ou colocando de outra forma, que uma sociedade que torna-se democratica em ethos assim como em constituição está fadada ao fracasso e não muita perda também.’


1.“A Batalha de Maldon,” um poema em Inglês Antigo do Século X, sobre o saque dos Vikings sob Anlaf, em Maldon Essex, em 991. “Lay of Ancient Rome” (1842) foi escrito por Thomas Macaulay e “Lepanto” (1911) por G.K. Chesterton.
2.De um poema não publicado de Owen Barfield.



Tradução: J.S. Cavani
LEWIS, C.S. Essay Collection & Other Short Pieces. London: HarperCollins, 2000. p. 689-692.

Thursday, January 14, 2010

Religião e Ciência

C.S. Lewis
(Originalmente publicado em 3 de Janeiro de 1945)

‘Milagres,’ disse meu amigo. ‘Não me venha com essa, a ciência já os refutou. Nós sabemos que a Natureza é guiada por leis fixas.’
‘Mas as pessoas já não sabiam disto?’ Eu perguntei.
‘Bom Deus, não! Por exemplo, tome a história do nascimento virginal. Nós sabemos que tal coisa não poderia acontecer. Nós sabemos que é necessário ter um espermatozóide.’
‘Mas olhe aqui,’ eu disse, ‘São José –’
‘Quem é ele?’ Perguntou meu amigo.
‘Ele era o esposo de Maria, a Virgem. Se você ler a história na Bíblia, você descobrirá que quando ele descobriu que sua noiva estava grávida, ele decidiu anular o casamento. Porque que ele fez isto?’
‘Não faria o mesmo a maioria dos homens?’
‘Qualquer homem faria,’ eu disse, ‘provendo que ele conhecesse as leis da Natureza – em outras palavras, provendo que ele soubesse que uma garota não concebe uma criança a não ser que ela tenha se deitado com um homem. Mas de acordo com sua teoria, as pessoas naqueles dias não sabiam que a natureza era governada por leis fixas. Estou lhe mostrando que a história mostra que José conhecia esta lei tão bem quanto você.’
‘Mas ele acabou acreditando no nascimento virginal depois, não?’
‘Sim. Mas ele não fez isto por estar sob qualquer ilusão referente a origem dos bebês no sentido comum da natureza. Ele acreditou no nascimento virginal como algo sobre-natural. Ele sabia que a natureza trabalhava de acordo com leis fixas: mas ele também acreditava que havia algo além da naturza que poderia interferir com sua rotina – algo de “fora,” poderiamos dizer.’
‘Mas a ciência moderna tem mostrado que tal coisa não existe.’
‘Sério?’ eu disse, ‘Qual das ciências?’
‘Oh, isto é questão de detalhes,’ disse meu amigo. ‘Eu não consigo te dar o capítulo e versículo de memória.’
‘Mas você não percebe,’ disse eu, ‘que a ciência nunca poderia demonstrar isto.’
‘E Porque não?’
‘Porque a ciência estuda a natureza. E a questão é se algo além da natureza realmente existe – algo “fora” da natureza. Como que você irá encontrar isto estudando somente a natureza?’
‘Mas não é verídico que a natureza deve funcionar absolutamente de uma maneira fixa? Quero dizer, as leis da natureza nos dizem não somente como as coisas acontecem, mas como elas devem acontecer. Nenhum poder poderia alterá-las.’
‘O que você quer dizer?’ perguntei.
‘Pode esta coisa fora da natureza, que você fala, fazer dois e dois cinco?’
‘Não,’ disse eu.
‘Então, eu creio que as leis da natureza são realmente dois e dois fazendo quatro. A idéia de elas serem alteradas é tão absurdo quanto alterar as leis da aritmética.’
‘Um momento lá,’ disse eu, ‘suponhamos que você coloque uma libra esterlina na gaveta hoje, e mais uma libra na mesma gaveta amanhã. As leis da aritmética garantem a você que será encontrada duas libras no dia depois de amanhã?’
‘Sim,’ disse ele, ‘provendo que ninguém tenha mexido na gaveta.’
‘Ah, mas este é o ponto,’ disse eu. ‘As leis da aritmética lhe dirão o que você descobrirá, com absoluta certeza, provendo que não haja interferência. Se um ladrão mexeu na gaveta, você terá um resultado diferente. Mas o ladrão não terá quebrado as leis da aritmética, apenas as leis da Inglaterra. Agora, não estão as leis da natureza no mesmo barco? Elas não dizem o que acontecerá, provendo que não haja interferência?’
‘O que você quer dizer?’
‘Bom, as leis lhe dizem que uma bola de sinuca viajará numa superfície de uma maneira particular – provendo apenas que ninguém interfira. Se, depois de estar já em movimento, alguém vier a tocar nela com o taco, você não terá o resultado que os cientistas preveram.’
‘Não, é claro, os cientistas não poderiam permitir que isto acontecesse.’
‘Sim, mas se houvesse algo “fora” da natureza que interferisse com ela, os eventos esperados pelos cientistas não aconteceriam. Isto seria o que nós chamamos de milagre. Num certo sentido, isto não quebraria as leis da natureza. As leis só lhe dizem o que acontece se nada interfere com ela. Elas não podem te dizer se algo irá ou não interferir. Quero dizer, não é o especialista em aritmética que pode te dizer o quão provável é que alguém mexa nos centavos na minha gaveta; um detetive seria mais propício. Não é o físico que pode te dizer a probabilidade de eu interferir com a trajetória da bola de sinuca, é melhor perguntar a um psicólogo. Não é o cientista que pode te dizer o quão provável a natureza pode ser interferida de fora. Tu deves ir ao metafísico.’
‘Estes são pontos triviais,’ ele disse. ‘Você vê, a objeção é mais profunda. Todo o quadro do universo que a ciência tem nos dado nos faz céticos que o Poder por trás de tudo poderia estar interessado em nós, criaturas minúsculas rastejando num planeta insignificante! Isto foi certamente inventado por pessoas que acreditavam na terra plana com as estrelas a uma milha ou duas de distância.’
‘Quando que as pessoas acreditavam nisto?’
‘Bom todos aqueles camaradas Cristãos que você está sempre falando acreditavam nisto. Quero dizer, Boécio, Agostinho, Tomás de Aquino e Dante.’
‘Desculpe, mas esta é uma das disciplinas que eu realmente sei a respeito.’
Fui até a estante de livros. ‘Você vê, este livro’ disse eu, ‘Almagest de Ptomoleu. Você sabe o que isto é?’
‘Sim,’ ele disse. ‘É o livro-texto padrão de astronomia da Idade Média.’
‘Bom, leia então o Livro I, capítulo 5.’
‘A terra,’ leu o meu amigo, hesitando um pouco ao traduzir o Latim, ‘a terra, em relação a distância das estrelas fixas, não tem nenhum tamanho apreciável e deve ser tratado como um ponto matemático!’
Houve um silêncio.
‘Eles realmente sabiam disto naquela época?’ Disse meu amigo. ‘Mas nenhuma das histórias da ciência – nenhuma das enciclopédias modernas menciona o fato.’
‘Exatamente’ disse eu. ‘Eu deixarei que você pense a razão. Parece até que alguém tentou intencionalmente encobrir o fato. Porque será?’
Houve outro curto silêncio.
‘De qualquer maneira,’ disse eu, ‘nós podemos agora descrever o problema claramente. As pessoas pensam que o problema normalmente é como reconciliar o que nós agora sabemos sobre o tamanho do universo e nossas idéias tradicionais de religião. Mas como vemos, este não é realmente o problema. O enorme tamanho do universo e a insignificância da terra já eram conhecidos há séculos, e ninguém dizia que eles tinha qualquer relação com a questão religiosa. Então, menos de cem anos atrás, eles são usados de repente como um argumento contra o Cristianismo. E as pessoas que os usaram como argumento cuidadosamente encobriram o fato que eles já eram conhecidos a muito tempo atrás. Você não acha que vocês ateus são pessoas estranhamente acima de qualquer suspeita?’


Tradução: J.S. Cavani
LEWIS, C.S. Essay Collection & Other Short Pieces. London: HarperCollins, 2000. p. 143-146.

Sacerdotisas na Igreja?

C.S. Lewis

(Originalmente publicado em 14 de Agosto de 1948 - o presente artigo trata da viabilidade das mulheres serem consideradas para o cargo e ofício pastoral. Um outro título poderia ser: É certo ter pastoras, bispas ou sacerdotisas na Igreja? É bom lembrar que C.S. Lewis refere-se a sacerdotes/sacerdotisas da maneira correta, como um ofício, um serviço, ou seja, um ministério, e não meramente como meros títulos decorativos - os quais têm bastante hoje em dia.)

“Eu gostaria mais dos bailes” disse Caroline Bingley “se eles fossem conduzidos de maneira diferente... Seria muito mais racional se a conversação ao invés da dança fosse a ordem do dia.” “Muito mais racional, com certeza” respondeu seu irmão, “mas não restaria muito parecido com um baile.”[1] Nós somos informados que a moça foi silenciada; mas poderia ser mantido que Jane Austen não permitiu que Bingley declara-se todo o potencial de sua posição... De certa maneira, conversação é mais racional pois ela exercita a razão apenas; a dança, não. Mas não há nada de irracional em exercitar outros poderes do que nossa razão... É racional não raciocinar ou limitar-se a razão no lugar errado; e quanto mais racional for o homem, mais ele sabe disso.

Estes comentários não são intencionados a ser uma contribuição a crítica de Orgulho e Preconceito. Eles vieram em minha mente quando eu ouvi que a Igreja da Inglaterra estava sendo avisada a declarar mulheres capazes da Ordem dos Sacerdotes... Tomar este passo revolucionário no presente momento é nos distanciarmos do passado Cristão e aumentar as divisões entre nós e outras Igrejas ao estabelecer sacerdotisas em nosso meio, isto seria um desnecessário grau de imprudência... Minha preocupação com a proposta é mais de natureza teórica. A questão envolve algo mais profundo que a revolução da ordem.

Eu tenho respeito por aquelas mulheres que desejam ser sacerdotisas. Eu creio que elas são sinceras e piedosas e pessoas sensíveis. Na verdade, elas são muito sensíveis. É aqui que meu desacordo com elas assemelha-se ao desacordo de Bingley com sua irmã. Sou tentado a dizer que a proposta nos faria parecer mais racional, “mas não restaria muito parecido com uma Igreja.” Pois, a primeira vista toda racionalidade (no sentido de Caroline Bingley) está no lado dos inovadores. Estamos com falta de sacerdotes. Descobrimos que profissão após profissão, as mulheres podem fazer todo tipo de coisas que eram uma vez supostas a estarem nas mãos dos homens apenas. Nenhum daqueles que não gostam desta proposta está mantendo que as mulheres são menos capazes de piedade, zelo, aprendizagem e tudo mais o que é necessário para o ofício pastoral. O que então, exceto o preconceito criado pela tradição, nos proíbe de lançar mão de tão grande reserva que poderia fluir no sacerdócio, assim como em muitas outras profissões, colocando as mulheres no mesmo patamar que os homens? E contra todo este dilúvio de senso comum, os opositores (muitos dos quais são mulheres) podem produzir nada mais que um desgosto desarticulado, um senso de desconforto, o qual, eles mesmos acham difícil de analizar.

Que esta reação não nasce de qualquer desprezo às mulheres é, eu creio, claro na História. A Idade Média carregou sua reverência pela mulher ao ponto de quase transformar uma virgem bendita na quarta pessoa da Trindade. Mas nunca, que eu saiba, em todo este tempo qualquer coisa parecida com o ofício sacerdotal foi atribuído à ela... Agora tu não podes ignorar o fato simplesmente dizendo que as condições locais e temporárias da época condenavam a mulher ao silêncio e a vida privada. Havia pregadoras que eram mulheres. Um homem tinha quatro filhas que profetizavam, i.e., pregavam (At 21.9). Havia também profetisas no Antigo Testamento. Profetisas, não sacerdotisas.

Neste ponto o reformador sensível há de perguntar, se elas pregavam, porque então elas não podem fazer o resto do trabalho do ofício pastoral. Nós começamos a perceber que o que realmente nos diferencia de nossos oponentes é o significado que eles e nós atribuímos a palavra “sacerdote.” A questão aprofunda o disconforto no meu lado. Quanto mais eles falam (e falam verdadeiramente) sobre a competência da mulher na administração, o tato delas e a simpatia delas como conselheiras, o talento natural de suas visitações, mais nós sentimos que o tema central está sendo esquecido. Para nós, um sacerdote é primeiramente um representante, um duplo representante, que nos representa perante Deus e Deus perante nós. Nossos próprios olhos nos ensinam isto na igreja. As vezes o sacerdote vira as costas para nós e nos representa perante Deus – ele fala a Deus por nós. As vezes ele vira para nós e fala a nós por Deus. Nós não temos nenhuma objeção a mulher fazendo a primeira coisa; toda a dificuldade repousa na segunda. Mas porquê? Porque a mulher não pode neste sentido representar Deus? Certamente porque ela não é necessariamente, ou até mesmo provavelmente, menos santa ou caridosa ou mais tola que o homem. Neste sentido ela é tão parecida com Deus quanto o homem; e talvez até mais. O sentido no qual ela não pode representar Deus será talvez mais claro se olharmos por outro lado.

Suponhamos que o reformador pare de dizer que uma boa mulher é a semelhança de Deus e comece a dizer que Deus é semelhante a uma boa mulher. Suponhamos que ele diga que ao invés de orarmos: “Nosso Pai que estás no céu” deveríamos orar “Nossa Mãe que estás no céu.” Suponhamos que ele sugira que a Incarnação poderia talvez ter tido forma feminina e não masculina, e que a Segunda Pessoa da Trindade deveria ser chamada de Filha e não de Filho. Suponhamos finalmente, que o casamento místico seja revertido, que a Igreja seja o Noivo e que Cristo seja a Noiva. Tudo isto, parece ao meu ver, estar envolvido na declaração que a mulher pode representar Deus.

Agora é claro que se todas estas suposições se concretizassem, nós estaríamos embarcando numa religião diferente. Deusas têm sido, é claro, adoradas – muitas religiões têm sacerdotisas. Mas elas são religiões bem diferentes em cárater que o Cristianismo. O senso comum, abandonando o disconforto, ou até mesmo o horror, que a idéia de transformar toda nossa linguagem teológica no gênero feminino possa provocar na maioria dos Cristãos, irá perguntar: Porque não? Se Deus de fato não é um ser biológico e não tem sexo, qual a importância se nós dizemos Ele ou Ela, Pai ou Mãe, Filho ou Filha?

Mas os Cristãos acreditam que o próprio Deus os ensinou como eles devem referir-se à Ele. Dizer que isto não importa é dizer que toda a imagem linguística masculina não é inspirada, que é meramente humana em origem, ou talvez que embora inspirada, seja bastante arbitrária e não essencial. E isto é certamente intolerável; ou se tolerável, é um argumento não a favor de sacerdotisas Cristãs, mas contra o Cristianismo. Isto também é baseado numa visão superficial de toda figura e imagem. Sem apelar a religião, nós sabemos de nossa experiência poética que imagem e apreensão são mais unidas do que o senso comum estaja preparado a admitir; e que uma criança que tem sido ensinada a orar a Mãe que está no céu, terá uma vida religiosa radicalmente diferente de uma criança Cristã. E a imagem e a apreensão estão numa unidade orgânica, assim como para o Cristão estão o corpo humano e a alma.

Os inovadores estão certamente implicando que o sexo é superficial, irrelevante para a vida espiritual. Dizer que homens e mulheres são igualmente elegíveis para tal profissão é dizer que para o propósito daquela profissão, o sexo deles é irrelevante. Nós estamos, neste contexto, tratando ambos como neutros. A medida que o Estado torna-se mais semelhante a uma colméia, ele precisa de um número crescente de trabalhadores que possam ser tratados como neutros. Isto talvez seja inevitável em nossa vida secular. Mas em nossa vida Cristã, nós devemos voltar a realidade. Nós não somos unidade homogêneas, mas orgãos diferentes e complementares de um corpo místico... O ponto é que a não ser que igual signifique intercambiável, igualdade não favorece o sacerdócio de mulheres. E o tipo de igualdade que implica que iguais são intercambiáveis (semelhante a maquinas idênticas) é uma ficção legal. Pode até ser uma ficção legal útil, mas na igreja nós somos incentivados a virar as costas para as ficções. Uma das razões pelo qual o sexo foi criado, foi para simbolizar a nós as coisas escondidas de Deus. Uma das funções do casamento humano é expressar a união da natureza entre Cristo e a Igreja. Nós não temos autoridade para pegar as figuras e imagens vivas que Deus desenhou na tela de nossa natureza e trocá-las de lugar como se elas fossem figuras geométricas....

A igreja reinvindica ser a guardiã da revelação. Se esta afirmação é falsa, então nós não devemos criar sacerdotisas, mas antes abolir sacerdotes. Se é verdadeira, então nós devemos encontrar na Igreja um elemento o qual os descrentes chamarão de irracional e os crentes de supra-racional. Deve haver algo opaco a nossa razão, mas não contrário a ela... Se abandornamos isto, se retermos somente aquilo que pode ser justificado por padrões de prudência e conveniência comprados no boteco do iluminado senso comum, então nós estaremos trocando a revelação pela religião natural.

É doloroso, sendo homem, ter que assertar o privilégio, ou a carga, que o Cristianismo coloca sobre o meu próprio sexo. Eu estou ciente de quão inadequado a maioria de nós é, em nossas individualidades históricas e atuais, de preencher o lugar preparado para nós. Mas é um antigo provérbio que no exército, você sauda o uniforme e não quem o está vestindo. Apenas alguém usando o uniforme masculino pode (provisionalmente até a volta de Cristo) representar o Senhor para a Igreja: porque todos nós somos, corporativamente e individualmente, femininos para Ele. Nós homens frequentemente não somos bons sacerdotes. Mas isto porque somos insuficientemente masculinos. Não é remediação chamar aqueles que nem sequer são masculinos. Um homem pode ser um péssimo marido, mas tu não podes remendar a situação através da inversão de papéis. Ele pode ser um péssimo parceiro de dança. A cura para isso é que os homens devem atender aulas de dança mais frequentemente; não que os bailes devam ignorar as distinções de sexo e tratar todos os dançarinos como neutros. Isto seria, é claro, eminentemente sensível, civilizado, iluminado, mas, “não tão parecido com um baile.”

E este pararelo entre a Igreja e o Baile não é tão irreal quanto alguns pensam. A Igreja deveria parecer-se mais com um baile do que uma fábrica ou partido político... a fábrica e o partido político são criações artificiais... Neles nós não estamos lidando com seres humanos em sua plenitude, apenas com ‘braços’ e votos. Não estou usando artificial no sentido derrogatório. Tais artifícios são necessários: mas porque eles são artifícios, nós podemos experimentá-los da maneira em que quisermos. Mas o baile existe para estilizar algo que é natural e que concerne seres humanos em sua inteireza – a saber, o cortejamento... Com a Igreja, nós nos apronfundamos mais ainda: pois nós estamos lidando com o masculino e feminino não apenas como fatos da natureza, mas como sombras vivas e tenebrosas de realidades totalmente além do nosso controle e muito além do conhecimento direto. Ou melhor, nós não estamos lidando com eles (mas como descobriremos assim que nos metermos) são eles que estão lidando conosco.


1.Orgulho e Preconceito, capítulo 2.

Tradução: J.S. Cavani

LEWIS, C.S. Essay Collection & Other Short Pieces. London: HarperCollins, 2000. p.398-402.

Tuesday, January 5, 2010

O Problema Com a Auto-Estima

PAUL C. VITZ

A teoria da auto-estima, com a qual tantas pessoas estão obcecadas hoje em dia, prediz que só os que se sentem bem consigo se sairão bem — motivo por que acham que todos os estudantes precisam disso. Contudo, as pesquisas não têm apoiado essa teoria.

Hoje, a parte maior e mais familiar da psicologia americana é a popular psicologia da auto-estima, que agora se encontra em toda a sociedade americana. Quase todos nós conhecemos bem a auto-estima e a obsessão que muitos têm com essa teoria em nossa época. Os programas de auto-estima afetam a vida de um número incontável de alunos de escola, pois essa idéia, realmente um ideal, foi adotada e aplicada principalmente na educação.

Historicamente, o conceito de auto-estima não tem origens intelectuais claras ou óbvias. Nenhum teórico de assuntos psicológicos de grande importância a tornou um conceito central. Muitos psicólogos, porém, enfatizaram o ego de várias maneiras, mas o foco costumeiro era a auto-realização ou cumprimento do potencial da própria pessoa. Como resultado, é difícil rastrear e chegar até a fonte dessa ênfase na auto-estima. Aparentemente, essa preocupação generalizada é uma destilação da preocupação geral com o ego encontrada em tantas teorias psicológicas. A auto-estima parece o denominador comum impregnando os escritos de tais variados teóricos como Abraham Maslow, Carl Rogers, psicólogos da força do ego e educadores morais, principalmente em época mais recente. Em qualquer caso, a preocupação com a auto-estima paira em todas as partes dos EUA hoje. No entanto, é impossível não achá-la no mundo da educação — dos mestres da educação, aos diretores, professores, conselhos de alunos e programas de televisão que se ocupam com a educação, de modo particular os programas que se ocupam com a educação pré-escolar, como Sesame Street.

O valor do ego, um sentimento de respeito e confiança na própria pessoa, tem mérito, conforme veremos. Mas um ego centrado em si, uma auto-estima do querer sentir-se bem com os próprios sentimentos, em que podemos ignorar nossos fracassos e nossa necessidade de Deus, é outra coisa bem diferente. O que há de errado com o conceito da auto-estima? Muita coisa, e é de natureza fundamental. Há milhares de estudos psicológicos sobre a auto-estima. Muitas vezes o termo auto-estima é confuso, pois seu rótulo é usado para vários aspectos como auto-imagem, auto-aceitação, autovalor, amor próprio, autoconfiança, etc. O ponto importante é que não há consenso acerca da definição ou medição para avaliar a auto-estima. E seja o que for a auto-estima, não há evidência confiável que apóie os resultados da auto-estima como se chegassem a ter muita importância.

Não há evidência de que a auto-estima provoque algum resultado. Aliás, um grande número de pessoas com pouca auto-estima realizou muito num tipo de atividade ou outra. Por exemplo, Gloria Steinem, que escreveu muitos livros e foi uma das principais líderes do movimento feminista, recentemente revelou numa longa declaração num livro que ela sofre de baixa auto-estima. E muitas pessoas com elevada auto-estima sentem-se felizes em ser ricas, belas ou ter ligações sociais importantes. Algumas outras pessoas, cuja elevada auto-estima foi observada, são bem sucedidos traficantes de drogas, de grandes cidades, que geralmente se sentem muito bem acerca de si mesmos. Afinal, eles tiveram sucesso em fazer muito dinheiro num ambiente hostil e competitivo.

Um estudo de conhecimentos matemáticos de 1989 comparou estudantes de oito países diferentes. Os estudantes americanos se classificaram em último lugar na capacidade matemática e os estudantes coreanos se classificaram em primeiro lugar. Mas os pesquisadores também pediram aos estudantes que dessem uma nota para si mesmos e que revelassem se eles se achavam bons em matemática. Os americanos se classificaram em primeiro lugar na opinião de si mesmos acerca da capacidade matemática, enquanto os coreanos se classificaram em último lugar. A auto-estima matemática teve uma relação inversa ao desempenho matemático. Isso com certeza é um exemplo da psicologia do sentir-se bem impedindo os estudantes de ter uma percepção acurada da realidade. A teoria da auto-estima prediz que só os que se sentem bem consigo se sairão bem, motivo por que acham que todos os estudantes precisam disso. Mas de fato, sentir-se bem consigo pode simplesmente fazer com que você tenha confiança exagerada, tenha uma vaidade exagerada e seja incapaz de trabalhar pra valer. Agora, não estou insinuando que uma elevada auto-estima tem sempre uma relação negativa com o desempenho. Em vez disso, a pesquisa mencionada acima mostra que as medições de auto-estima não têm nenhuma relação confiável com a conduta, positiva ou negativa. Em parte, o motivo simples disso é que a vida é complexa demais para uma noção simples ser de muita utilidade. Mas por outros motivos devemos de antemão esperar esse fracasso.

Nós todos conhecemos pessoas que são motivadas por inseguranças e dúvidas internas. Essas pessoas muitas vezes são os heróis e vilões da história. É um fato bem documentado que na história das realizações militares fanáticas há o predomínio de certos homens de estatura baixa. Júlio César, Napoleão, Hitler e Stálin eram todos homens determinados a provar que eles eram grandes. Muitos grandes atletas e outros tiveram de vencer deficiências físicas e falta de auto-estima. Poderíamos chamar isso de efeito de Demóstenes, de acordo com o grego da Antigüidade que tinha problemas de fala. Ele praticava a fala com a boca cheia de pedrinhas e mais tarde se tornou um orador famoso.

Muitas realizações superiores parecem ter sua origem no que o psicólogo Alfred Adler chamou de complexo de inferioridade. O ponto importante não é que sentir-se mal sobre nós mesmos é bom, mas que só duas coisas podem verdadeiramente mudar o modo como nos sentimos sobre nós mesmos. O desempenho real e o amor real.

Primeiro, o desempenho no mundo real afeta nossas atitudes. Uma criança que aprende a ler, que consegue fazer matemática, que consegue tocar piano ou jogar futebol, terá um sentimento genuíno de desempenho e um sentimento adequado de auto-estima. As escolas que fracassam no ensino da leitura, escrita e aritmética corrompem o entendimento adequado da auto-estima. Os educadores dizem: “Não dê notas a eles. Não os rotule com classificações. Faça-os se sentirem bem consigo”. Esses educadores causam esses problemas. Não faz sentido algum os estudantes estarem cheios de auto-estima se não aprenderam nada. A realidade logo furará seu balão de ilusões e eles terão de enfrentar dois fatos perturbadores: que eles são ignorantes; e que os adultos responsáveis pelo ensino deles lhes mentiram.

No mundo real, o elogio deve ser a recompensa por algo que valha a pena. O elogio deve estar ligado à realidade.

Há um modo ainda mais fundamental em que a maioria das pessoas chega à genuína auto-estima, realmente chega a sentimentos de se valorizarem ou ao que os psicólogos chamam de “confiança básica”. Tais sentimentos vêm através do amor que se recebe.

Em primeiro lugar, o amor de nossa mãe, normalmente. Mas não dá para falsificar essa experiência fundamental de amor e autoconfiança. Quando os professores tentam criar essa emoção profunda e motivadora fingindo que eles amam todos os seus estudantes por uma hora ou menos por dia, e louvando-os indiscriminadamente, eles entendem mal a natureza desse tipo de amor. Não dá simplesmente para um professor produzir o amor dos pais em poucos minutos de interação por dia. A criança não só sabe que tal amor é falso, mas também que os professores reais têm de ensinar, e que isso envolve não só apoio, mas também disciplina, requisitos, repreensões e, em resumo, amor e firmeza.

Os bons professores mostram seu amor se importando o suficiente para usar a disciplina. Assim os melhores e mais admirados professores na maioria das escolas secundárias americanas de hoje são os treinadores de esportes. Eles ainda ensinam, mas exigem desempenho e raramente se preocupam com a auto-estima. Uma das melhores coisas que podem acontecer para um jogador de futebol iniciante que não é bom é ser cortado do time, porque então ele poderá começar a ir atrás daquilo em que ele é bom. Em vez de ficar lutando para avançar no futebol — esporte em que ele poderia desperdiçar cruciais anos de sua vida como um jogador de terceira categoria — ele poderia ser um jogador de golfe, ou estudante de matemática ou artista de primeira. Muitas coisas na vida descobrimos pelo processo de eliminação e precisamos ter fé suficiente em nossos professores que eles nos eliminarão de algumas das matérias das quais não fazemos parte de modo que possamos encontrar o lugar ao qual pertencemos.

Problemas semelhantes surgem para os que tentam construir sua lenta auto-estima falando carinhosamente com sua própria criança interior ou outro ego interior inseguro. Tais tentativas estão condenadas ao fracasso por dois motivos: primeiro, se temos insegurança acerca de nosso próprio valor, como é que poderemos crer em nosso próprio elogio? Pense bem nisso. Se não achamos que somos realmente importantes, como é que então poderemos dizer a nós mesmos que somos e crer nisso? A realidade tem de existir — o amor de outras pessoas ou o desempenho real de algo. Então sabemos: “Ei, tem fundamento”. Caso contrário, a auto-estima é apenas um pequeno narcótico psicológico em nossa vida. E segundo, como toda criança, sabemos a necessidade de autodisciplina e desempenho. Em resumo, deve-se entender a auto-estima como uma reação, não uma causa. É principalmente uma reação emocional ao que nós e ao que os outros têm feito para nós. Embora seja um sentimento ou estado interior desejável, como a felicidade, não tem muito efeito. Além disso, como a felicidade e como o amor, é quase impossível se obter a auto-estima tentando obtê-la. Tente obter a auto-estima e você provavelmente fracassará, mas faça o bem aos outros e realize algo para si e você terá tudo o que precisa.

O assunto é vital para os cristãos em parte porque tantos estão preocupados com essa questão, e em parte porque a recuperação da auto-estima vem sendo enfatizada de modo bem explícito, principalmente no Cristianismo protestante. Precisamos observar, porém, que a auto-estima é um conceito profundamente secular, e não é um conceito no qual os cristãos deveriam ter um envolvimento especial. Nem há necessidade alguma que eles se envolvam. Os cristãos deveriam ter um senso tremendo de valor próprio. Deus nos fez conforme Sua imagem, Ele nos ama, Ele enviou Seu Filho para salvar cada um de nós, nosso destino é estar com Deus para sempre. Cada um de nós tem tanto valor que os anjos se regozijam com todo pecador arrependido.

Mas por outro lado, não temos nada em nós mesmos do que nos orgulharmos. Recebemos vida com todos os nossos talentos, e somos todos pobres pecadores. Certamente não há nenhuma razão teológica para crer que os ricos ou os bem-sucedidos ou os que têm elevada auto-estima são mais favorecidos por Deus e têm mais probabilidade de chegar ao céu. Aliás, bem-aventurados sãos os humildes.

Além disso, a auto-estima é baseada na própria noção americana de que cada um de nós é responsável por nossa própria felicidade. Assim, dentro de um sistema cristão, a auto-estima tem um efeito sutil e negativo; podemos adotar a busca da felicidade como uma meta pessoal bem mais intensa do que a busca da santidade.

Hoje, a auto-estima se tornou muito importante porque é considerada essencial para a felicidade. A menos que amemos a nós mesmos, não seremos felizes. Mas presumir que devemos amar a nós mesmos, que Deus não nos amará tanto quanto precisamos ser amados é uma forma de ateísmo prático. Dizemos que cremos em Deus, mas não confiamos nEle. Em vez disso, muitos cristãos vivem de acordo com uma idéia que não tem base na Bíblia: “Deus ama aqueles que se amam”.

Outro problema é que os cristãos começaram a desculpar o mal ou comportamentos destrutivos na base da auto-estima. Mas a auto-estima, quer baixa ou elevada, não decide nossas ações. Temos de prestar contas por nossas ações e temos a responsabilidade de tentar fazer o bem e evitar o mal. A baixa auto-estima não torna alguém alcoólatra, nem faz com que uma pessoa finalmente seja capaz de confessar seu vício e fazer algo sobre o problema. Essas duas decisões competem a cada um de nós, independente de nosso nível de auto-estima.

Finalmente, colocar todo o foco em nós mesmos alimenta um amor a nós mesmos que não tem base nenhuma na realidade. É o que os psicólogos muitas vezes chamam de narcisismo. Poderíamos achar que os Estados Unidos já tiveram problemas demais com o narcisismo da década de 1970, que foi a Geração do Eu e na década de 1980 com os yuppies. Hoje, a busca da auto-estima é apenas uma expressão mais recente da velha egomania dos Estados Unidos.

Ao dar uma face feliz aos alunos de escola por seu dever de casa só porque foi entregue ou lhes dar troféus só por estarem presentes no time é bajulação do tipo vista durante décadas em nossos slogans comerciais: “Você merece uma pausa hoje”, “Você é o chefe”, “Faça do jeito que quiser”. Tal amor próprio é uma expressão extrema de uma psicologia individualista que nosso mundo consumista há muito tempo sustenta. Agora, quem reforça esse amor próprio sãos os educadores que gratificam a vaidade até mesmo de nossas crianças novas com mantras repetitivos como “Você é a pessoa mais importante do mundo inteiro”.

A ênfase narcisista na sociedade americana e principalmente na educação e até certo ponto na religião é uma forma disfarçada de adoração ao ego. Se aceita, os Estados Unidos terão 250 milhões das “pessoas mais importantes do mundo inteiro”. Duzentos e cinqüenta milhões de egos de ouro. Se tal idolatria não fosse socialmente tão perigosa, seria embaraçosa, e até de dar pena. Vamos esperar que o bom senso consiga fazer um retorno às nossas vidas.

Paul C. Vitz, Ph.D. (Universidade de Stanford, 1962), é professor emérito de psicologia, departamento de psicologia da Universidade de Nova Iorque.

Copyright © 1995 Paul C. Vitz.

Traduzido do original em inglês: “The Problema with Self-Esteem”.

Traduzido e adaptado por Julio Severo: www.juliosevero.com.br

Sunday, November 22, 2009

The Everlasting Man

The Witness of the Heretics (O Testemunho dos Hereges)

G.K. Chesterton em seu célebre livro, The Everlasting Man (1925) [O Homem Eterno], havia certa vez escrito que nenhum outro símbolo era tão forte para descrever a complexidade do Evangelho do que a figura de uma chave. O Evangelho era uma chave, e o Cristão primitivo era uma pessoa que carregava uma chave, ou melhor, o que ele proclamava era uma chave. A reivindicação maior do nascente movimento cristão era que eles tinham em sua posse uma chave, e mais, eles alegavam que somente eles tinham esta chave e nenhuma outra pessoa ou movimento possuia uma réplica igual. Assim sendo, o movimento era tão estreito quanto ele poderia ser, só que o fato era que aquela chave poderia destrancar a prisão do mundo inteiro.
O credo cristão era uma chave em três aspectos:

a) Primeiro, a chave era acima de tudo, um objeto com um tamanho definido. Na verdade, era um objeto cujo propósito dependia inteiramente de ela manter sua forma original. A filosofia cristã era uma filosofia de forma e inimiga de todas teorias deformadas. Isto é, o credo cristão diferia da infinitude sem-forma, Maniqueísta ou Budista, que fazia parte da noite escura da Àsia. Era também neste quesito, o de uma forma definida, que o credo Cristão diferia do evolucionismo, a idéia de criaturas constantemente perdendo suas formas. Um homem ficaria bravo ao saber que a chave de sua casa teria se fundido com um milhão de outras numa unidade Budista; Ele também ficaria igualmente irritado se descobrisse que sua chave tivesse igualmente crescido em seu bolso e tivesse gerado milhares de ramos evolucionistas.

b) Segundo, a forma da chave era em si mesma fantástica. A chave não era um quesito de abstrações, no sentido em que ela não era matéria de argumentações; ou ela abria a porta ou não. A chave era um fato objetivo concreto, não uma filosofia vaga discutida por filósofos e sofistas.

c) Terceiro, a chave era necessariamente um objeto com um tamanho e forma definido, de fato, a chave dependia de um padrão especifico. Quando as pessoas reclamam que a fé é complicada com conceitos teológicos difíceis e etc, eles esquecem que o mundo não era uma simples fechadura, mas sim, uma fechadura complexa, cheio de labirintos e cantos estranhos. O problema era em si um problema complicado, ele não envolvia algo meramente tão simples quanto o pecado. A fechadura estava cheio de segredos, falácias profundas e enigmáticas que existiam desde a fundação do mundo. A chave era complexa porque o problema, a fechadura, era complexa. A única coisa simples sobre a chave é que ela abria a porta.

Monday, September 7, 2009

O Nacionalismo de Esquerda é Uma Fraude

Olavo de Carvalho
(Maio de 2001)

Os apóstolos do Estado nacional, que espumam de indignação patriótica à simples idéia de privatizar alguma empresa estatal, tornam-se de repente globalistas assanhados quando um poder supranacional vem defender os interesses deles contra os interesses da pátria.

Essa conduta é tão repetida e uniforme que só um perfeito idiota não perceberia nela um padrão, e por trás do padrão uma estratégia. Desde logo, “a pátria” que eles celebram se constitui exclusivamente de estatais, onde têm sua base de operações e de onde dominam não somente uma boa fatia do Estado, mas também os sindicatos de funcionários públicos e seus monumentais fundos de pensão.

Defendendo sua toca com a ferocidade de javalis acuados, desprezam tudo o mais que compõe a noção de “pátria” e não se inibem de colocar-se a serviço de ONGs e governos estrangeiros quando atacam as instituições nacionais, desmoralizam as Forças Armadas, desmembram o território brasileiro em “nações indígenas” independentes, impõem normas à educação de nossas crianças, fomentam conflitos raciais para destruir o senso de unidade nacional e, em suma, arrebentam com tudo o que constitui e define a essência mesma da nacionalidade. Da pátria, só uma coisa lhes interessa: o dinheiro e o poder que lhes vêm das estatais.

Em segundo lugar, o nacionalismo que ostentam é de um tipo peculiar, desde o ponto de vista ideológico. É um nacionalismo seletivo e negativo, que enfatiza menos o apego aos valores nacionais do que a ojeriza ao estrangeiro - e mesmo assim não ao estrangeiro em geral, como seria próprio da xenofobia ordinária, mas a um estrangeiro em particular: o americano.

Assim, por exemplo, não sentem a menor dor na consciência quando, sob o pretexto imbecil de que toda norma gramatical é imposição ideológica das classes dominantes, demolem a língua portuguesa e acabam suprimindo do idioma duas pessoas verbais (mutilação inédita na história lingüística do Ocidente); mas, ante o simples ingresso de palavras inglesas no vocabulário - um processo normal de assimilação que jamais prejudicou idioma nenhum, e que aliás é mais intenso no inglês do que no português -, saltam ao palanque, com os olhos vidrados de cólera, para denunciar o “imperialismo cultural”.

Ser nacionalista, para essa gente, não é amar o que é brasileiro: é apenas odiar o americano um pouco mais do que se odeia o nacional. Mas, para cúmulo de hipocrisia, seu alegado antiamericanismo não os impede de celebrar o intervencionismo ianque quando lhes convém, por exemplo quando ajudam alegremente a desmoralizar a cultura miscigenada que constitui o cerne mesmo do estilo brasileiro de viver e lutam para impor entre nós a política americana das quotas raciais, em consonância com as campanhas milionárias subsidiadas pelas fundações Ford e Rockefeller.

Do mesmo modo, seu antiamericanismo fecha os olhos à entrada de novos códigos morais - feministas e abortistas, por exemplo - improvisados em laboratórios americanos de engenharia social com a finalidade precisa de destruir os obstáculos culturais ao advento da nova civilização globalista.

Redução do nacionalismo à defesa das estatais, substituição do antiamericanismo ao patriotismo positivo, adesão oportunista ao que é americano quando favorece a esquerda: desafio qualquer um a provar que a conduta constante e sistemática da chamada “esquerda nacionalista” não tem sido exatamente essa que aqui descrevo, definida por esses três pontos.

Nunca, na História, houve patriotas a quem se aplicasse tão exatamente, tão literalmente e com tanta justiça a observação de Samuel Johnson, de que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas.

Wednesday, September 2, 2009

Winston Churchill: Definição do Socialismo


“O socialismo é a filosofia do fracasso, a crença na ignorância, a pregação da inveja”

“Seu defeito inerente é a distribuição igualitária da miséria”

- Winston Churchill


Nota JSC: O grande erro do socialista é sua filosofia baseada no conceito de igualdade. Seria bom que todos fossem iguais e que não houvesse desigualdades, mas isto só valeria em um mundo perfeito, onde todos fossem honestos e ninguém fosse maldoso. Assim todos trabalhariam e não haveria desigualdades. Mas não se enganem, isto é apenas um sonho! Um sonho que nunca se tornará realidade enquanto o pecado existir, um sonho cuja probabilidade de concretização é quantativamente maior e qualitativamente melhor dentro da esperança escatológica cristã do que a utopia marxista.

O Mundo não é perfeito, e é exatamente por isto que existe um conceito mais real e pragmático do que a ilusória igualdade, um conceito que começou a existir desde a queda: a equidade. A equidade afirma que nós devemos dar a alguém aquilo que ela merece, isto é justiça. Isto quer dizer que não é certo punir o diligente por ele trabalhar demais e recompensar o preguiçoso por ele não fazer nada. Cada um é julgado pelas suas próprias obras.